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José Pancetti

Autorretrato com marreta, 1941

  • Autor:
    José Pancetti
  • Dados biográficos:
    Campinas, São Paulo, Brasil, 1902-Rio de Janeiro, Brasil ,1958
  • Título:
    Autorretrato com marreta
  • Data da obra:
    1941
  • Técnica:
    Óleo sobre tela
  • Dimensões:
    73 x 59,5 x 3 cm
  • Aquisição:
    Doação Paulo Franco, 1948
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.00569
  • Créditos da fotografia:
    João Musa

TEXTOS



Filho de imigrantes italianos de origem humilde, Pancetti começou a pintar enquanto trabalhava como marinheiro. Não por acaso, uma parte significativa de sua obra, e pela qual ele é conhecido, consiste em pinturas de paisagens litorâneas. Realizou cerca de 65 autorretratos, sobretudo nos últimos 20 anos de sua vida. Geralmente ele se representava de lado, com um rosto anguloso e um olhar intenso e questionador. Também costumava associar a sua figura à um trabalho ou um papel social: almirante, marinheiro, grevista, pai de família, ou operário como é o caso de Autorretrato com marreta. Com expressão séria e olhar franco, um homem maduro empunha firmemente e com certo orgulho sua ferramenta de trabalho sobre o ombro. Além de estabelecer uma referência com a biografia do artista — que alternou trabalhos como de mecânico, carpinteiro, pintor de parede, antes de ingressar a Marinha brasileira, e cujo pai era mestre de obras e pedreiro —, a pintura também estabelece uma relação entre o fazer artístico e o ofício manual. Esse paralelo se aproxima do entendimento da obra de arte como trabalho, tal como defendido por Lina Bo Bardi (1914-1992), de modo a dessacralizar e descolonizar as tradicionais hierarquias que existem entre a arte erudita de matriz europeia e as produções populares e autodidatas. A exibição nos cavaletes permite visualizar o verso desse autorretrato de Pancetti, que optava por quadros facilmente transportáveis, e que frequentemente utilizava as suas costas como diário, no qual anotava reflexões pessoais ou ainda pintava outra composição, caso dessa estranha natureza-morta com duas bonecas.

— Equipe curatorial MASP, 2017




Por Regina Teixeira de Barros
Filho de imigrantes italianos domiciliados no interior de São Paulo, José Pancetti (1902-1958) foi enviado para a Itália aos 11 anos para viver com os avós, devido à precária situação financeira dos pais. Retornou ao Brasil em 1920 como marinheiro, tendo trabalhado anteriormente em diversos ofícios — de aprendiz de marceneiro numa funerária a operário em fábricas de bicicletas e material bélico. Ao chegar, passou por alguns empregos antes de alistar-se na Marinha de Guerra brasileira, onde permaneceu de 1922 a 1946, quando se reformou na qualidade de 2º Tenente. Conhecido entre os marinheiros como o moço das tintas, Pancetti começou a pintar em 1925 sem formação artística prévia. Em 1933 participou por um breve período do Grupo Bernardelli, no Rio de Janeiro, encontrando maior afinidade com o artista Bruno Lechowski. Bastante conhecido por suas marinhas, Pancetti pintou também naturezas-mortas, paisagens urbanas e rurais, retratos e autorretratos. Como em diversos de seus trabalhos neste gênero, em Autorretrato com marreta, do acervo do MASP, o artista se apresenta como um trabalhador com o rosto levemente geometrizado, virado de três-quartos, e o olhar de soslaio. A economia de cores, a figura centralizada e o fundo abstrato também são características recorrentes. Ao menos duas particularidades notabilizam o Autorretrato com marreta: por um lado, a posição do instrumento de trabalho — paralela ao corpo do artista — reitera a linha de força diagonal, enfatizando a intimidade entre o artista e o labor. Por outro, o amarelo-ouro do fundo contrasta com o vermelho intenso da camisa, evocando uma sacralidade análoga aos ícones bizantinos.

— Regina Teixeira de Barros, doutora em Estética e História da Arte, USP, 2021





Por Guilherme Giufrida
Como antropólogo e curador, me interesso muito pela vida dos objetos. É fascinante ver as imagens da chegada das primeiras obras ao MASP no início da formação do acervo — a descida do avião, a recepção no porto, a foto estampada nos jornais, como celebridades. Meu primeiro trabalho na curadoria do museu foi na mostra Da bolsa ao museu, Comodato MASP B3, por ocasião do empréstimo por 30 anos de 65 obras pertencente às Bolsas de Valores, reunidas na B3. Várias pinturas de alguns ícones da arte brasileira do século 20, como Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Pancetti e Guignard, vieram aprofundar e complementar a coleção brasileira do museu, que historicamente havia privilegiado a aquisição de arte europeia. Numa das primeiras visitas, a equipe do museu fez fotos das salas de reunião da Bolsa no centro de São Paulo, ainda com as obras nas paredes, mostrando onde cada uma era exposta e de que forma testemunharam por décadas muitas das principais decisões financeiras do país. Hoje, as pinturas são apresentadas nos cavaletes de vidro no MASP, para um público muito mais amplo. Ao vê-las ali, junto a outras centenas de obras do museu, especulo sobre as outras paredes (ou suportes) por onde passaram, que cenas e eventos presenciaram silenciosas, até finalmente chegarem ao MASP.

— Guilherme Giufrida, curador assistente, MASP, 2020




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