MASP

Elza O. S.

Dentro de casa, 1964

  • Autor:
    Elza O. S.
  • Dados biográficos:
    Recife, Brasil, 1928-Rio de Janeiro, Brasil, 2006
  • Título:
    Dentro de casa
  • Data da obra:
    1964
  • Técnica:
    Óleo sobre tela
  • Dimensões:
    58 x 89 cm
  • Aquisição:
    Doação Galeria Estação, 2016
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.01630
  • Créditos da fotografia:
    MASP

TEXTOS



Nascida no Recife, Elza de Oliveira Sousa mudou‑ se aos 18 anos para o Rio de Janeiro com o marido, Gerson de Souza (1928-2007), que também era pintor. Naquela cidade, trabalhou como bordadeira, estudou teatro, canto lírico e frequentou o famoso curso que o artista Ivan Serpa (1923-1973) ministrava no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), que formaria vários artistas e que ficou conhecido por cultivar “a liberdade completa de expressão”, nas palavras do crítico Mário Pedrosa (1900-1981). A partir de 1964, participou de dezenas de exposições, coletivas e individuais, mas sua acolhida em coleções públicas não correspondeu à intensa atividade: apenas o MAM Rio e o MASP têm trabalhos seus. Dentro de casa apresenta um inquietante jogo de planos e paredes forradas por quadros de grandes dimensões, em que são representados personagens em escala e traços muito próximos aos que habitam esse estranho ambiente na própria pintura. Cinco personagens são representados no interior de uma casa ou de uma galeria, ocupada por três grandes pinturas, enquanto uma menor é oferecida aos nossos olhos por uma das personagens. O jogo de espelhamento e representação, numa sucessão de quadros dentro de quadros, sugere um jogo labiríntico de imagens dentro de imagens.

— Adriano Pedrosa, diretor artístico, Olivia Ardui, assistente curatorial, 2017


Fonte: Adriano Pedrosa (org.), MASP de bolso, São Paulo: MASP, 2020.




Por Clarissa Diniz
Dentro de casa, pintura que se sabe observada, devolve sua invasiva contemplação através dos olhares das figuras que afonicamente a habitam. No íntimo da própria morada, a obra de Elza O. S. (1928-2006) toma a si mesma e a nós, espectadores, simultaneamente como sujeitos e objetos: entre retratos e representações, elabora um jogo de voyeurismos e reflexividades que nos enreda na circularidade das tradições antropológicas do olhar. A artista recifense que queria ser cantora lírica — mas foi cabelereira, bordadeira, mãe e dona de casa — tornou-se, por fim, pintora. Entre 1962 e 1963, integrou o Curso Livre conduzido pelo artista Ivan Serpa (1923-1973) no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, ocupando o lugar social da arte que lhe era familiar em razão de seu marido, o pintor Gerson de Souza, com o qual migrara para o Rio de Janeiro em 1948. Se é certo que, eminentemente por conta de Serpa, artistas ditos populares integraram mostras do neoconcreto Grupo Frente, por outro lado, situações como o impedimento da entrada da Escola de Samba Mangueira no MAM-RJ, em 1965, nos advertem que, apesar da transparência de seu edifício, os vidros de um museu não são apenas porosos, senão também podem produzir uma intimidadora reflexividade que segue espelhando, para fora, o que está em seu exterior. Cotidianamente defrontada com essa ambivalente e traumática condição, Elza O. S. parece nos advertir de suas armadilhas. Como uma arapuca destinada a ricochetear nosso olhar, a pintura Dentro de casa captura as bem intencionadas ambições da representação. Ao fazê-lo, a obra expõe como nossos olhares, tal qual nossos próprios museus, invadem o mundo alheio mesmo que em nome de sua própria preservação.

— Clarissa Diniz, mestre em Artes, UERJ, 2021




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