MASP

Marcela Cantuária

Maternidade compulsória, 2016

  • Autor:
    Marcela Cantuária
  • Dados biográficos:
    Rio de Janeiro, Brasil, 1991
  • Título:
    Maternidade compulsória
  • Data da obra:
    2016
  • Técnica:
    Óleo e acrílica sobre tela
  • Dimensões:
    153 x 220 cm
  • Aquisição:
    Doação da artista, no contexto da exposição Histórias das mulheres, histórias feministas, 2019
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.10849
  • Créditos da fotografia:
    Eduardo Ortega

TEXTOS



A obra de Marcela Cantuária é permeada por técnicas, cores e elementos cuja construção nos faz vislumbrar ambientes oníricos que, ao mesmo tempo, remetem a uma realidade crua e palpável. Em Maternidade compulsória, a artista utiliza fragmentos de imagens coletadas em arquivos de mulheres próximas a ela, que enfrentaram diferentes processos de maternidade, fossem elas desejadas ou não. Aqui também vemos as tensões entre um espaço de sonho em contraste com uma realidade material, marcados por figuras femininas que trazem à tona, além da ideia de uma maternidade forçada pela criminalização do aborto, a violência obstétrica à qual esses corpos são, muitas vezes, submetidos. A criminalização do aborto fere a autonomia, a liberdade e a saúde das mulheres, tornando as práticas clandestinas uma perigosa saída para a gravidez indesejada. As consequências dessas práticas, muitas vezes insalubres, são um dos maiores responsáveis pela morte de mulheres no Brasil — configurando um ato de violência infligido ao corpo e à mente da mulher. Em Maternidade compulsória, Cantuária evidencia as amarras socialmente impostas às mulheres no que diz respeito ao trabalho reprodutivo e doméstico, que envolve o cuidado com a casa, os filhos e a família. Essas amarras são representadas pelas correntes e grades que permeiam todo o quadro e os corpos das diversas figuras femininas. Duas mulheres grávidas, vestidas com uma capa plástica, executam um movimento que sugere asfixia, enquanto outra segura uma bola na altura do ventre, sugerindo uma possível gravidez. A figura da mãe com uma criança nos braços é justaposta à imagem de louças na pia e varais de roupa, evidenciando a força de trabalho não remunerado que as mulheres ainda constituem na sociedade. Esta obra levanta, assim, questões de urgência para as lutas feministas: a liberdade sexual, reprodutiva, corporal, social, política e econômica das mulheres.

— Beatriz Lemos, mestre em história, PUC-RJ, 2019

Fonte: Instagram @masp 22.09.2019 apud Adriano Pedrosa, Isabella Rjeille e Mariana Leme (orgs.), Histórias das mulheres, Histórias feministas, São Paulo: MASP, 2019.




Por Beatriz Lemos
Autodenominada uma mulher americana do sul, a artista Marcela Cantuária insere-se num efervescente contexto social, político e econômico permeado por altíssimos índices de violência contra a mulher latino-americana e caribenha, o que faz da região uma das mais perigosas do mundo para os corpos femininos. Tal situação dramática é enfrentada pelos movimentos feministas que periodicamente tomam as ruas de diversos países, clamando por mudanças por meio de gritos, vestimentas e também de produções artísticas. A obra Maternidade compulsória, do acervo do MASP, traz à tona uma das questões centrais que afeta as mulheres: a de ser ou não mãe. Na pintura, Cantuária contrapõe o onírico à crueza da realidade de personagens femininas notoriamente marginalizadas, evidenciando as amarras — representadas pelas correntes e grades que envolvem os corpos dessas figuras — socialmente impostas às mulheres no que diz respeito ao trabalho reprodutivo e doméstico, que inclui o cuidado com a casa, os filhos e a família. A figura da mãe com uma criança no colo é justaposta à imagem de louças na pia e varais de roupa, o que expõe a força de trabalho não remunerado que as mulheres ainda constituem na sociedade. Tais cenas sugerem o imaginário patriarcal de pouca autonomia das mulheres sobre seus corpos e, consequentemente, sobre suas próprias vidas. Ainda assim, ouve-se reverberar pelas ruas ocupadas por mulheres da América do Sul de Cantuária: "a maternidade será desejada ou não será".

— Beatriz Lemos, mestre em história, PUC-RJ, 2019




Por Isabella Rjeille
A obra Maternidade compulsória de Marcela Cantuária fez parte da exposição Histórias feministas que curei em 2019 no MASP. Cantuária partiu de histórias e imagens de amigas e mulheres próximas a ela que viveram diferentes processos de maternidade, fossem eles desejados ou não. Em um espaço fragmentado, quase onírico, corpos femininos encontram-se sobrepostos a cenas de trabalho doméstico como um varal de roupas estendidas e louças em uma pia. Correntes e grades parecem entrelaçar as figuras aos fundos. Essas “amarras” simbolizam a realidade do trabalho reprodutivo e do cuidado ao qual muitas mulheres são socialmente submetidas – da retirada de autonomia sobre o próprio corpo pela criminalização do aborto às violências obstétricas, físicas e psicológicas vividas durante e após a gestação. O trabalho para o sustento da família soma-se ao trabalho não-remunerado do cuidado dos filhos e da casa – algo que o patriarcado tenta naturalizar como uma responsabilidade exclusivamente feminina. No Brasil, mães solteiras comandam 11,6 milhões de lares no país, sobrecarregadas com o sustento de si e da família, penso nelas em meio a esta pandemia. Em um momento de crise sanitária, em que tanto se fala sobre cuidado, muitas mulheres encontram-se em uma situação ainda mais vulnerável: para além do acúmulo do trabalho que envolve cuidar e educar; muitas vezes ainda tem suas vidas colocadas em risco em situações de trabalho precarizado, na tentativa de levar sustento para casa ou até mesmo pela convivência com agressores embaixo do mesmo teto, enquanto tentam se proteger da ameaça invisível do vírus. Quem cuida dessas mulheres?

— Isabella Rjeille, curadora, MASP, 2020




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