MASP

José Malhoa

O ateliê do artista, 1894

  • Autor:
    José Malhoa
  • Dados biográficos:
    Caldas da Rainha, Portugal, 1855-Figueiró dos Vinhos, Portugal ,1933
  • Título:
    O ateliê do artista
  • Data da obra:
    1894
  • Técnica:
    Óleo sobre tela
  • Dimensões:
    93,5 x 127,5 x 2,5 cm
  • Aquisição:
    Doação Abílio Brenha da Fontoura, 1967
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.00651
  • Créditos da fotografia:
    João Musa

TEXTOS



José Malhoa (1855-1933) foi um artista português que transitou entre diferentes tipos de pintura, destacando-se principalmente pela pintura de gênero, na qual se aproxima do realismo e retrata a vida rural portuguesa. Além disso, o artista realizou algumas pinturas de modelo nu, como é o caso de O ateliê do artista. Em 1894, esta obra foi apresentada na quarta exposição do Grêmio Artístico em Lisboa e destacou-se em meio a ausência de obras deste gênero na produção portuguesa da época. Nessa cena de ateliê, Malhoa retratou a modelo nua sentada com as costas arqueadas, enquanto se aquecia próxima ao aquecedor. O corpo da modelo é ressaltado pelo tecido branco e azul que cai por cima de suas pernas e pelo banco na qual encontra-se sentada. Próximo à mulher, um jarro com pincéis sobre um banco verde conduz o olhar ao fundo da tela, onde o artista é retratado observando um estudo sob um fundo também esverdeado. A composição é marcada pela forma despojada com a qual Malhoa trabalhou o tema do nu feminino: afastando-se um pouco da idealização esperada deste corpo, a modelo é retratada em um momento de descanso assim como o artista, que fuma um cachimbo enquanto olha um desenho. As representações de ateliê são temas recorrentes na história da arte e registram o processo de trabalho dos artistas e das modelos que colaboravam com eles.

— Equipe curatorial MASP, 2020





Por Luciano Migliaccio
Malhoa não parece ter sido bom aluno de desenho de modelo vivo do professor Lupi, que considerou seu aproveitamento no curso apenas como sofrível. Na exposição do Grêmio Artístico de 1894, ele apresentou dois quadros intitulados Descanso do Modelo e Antes da Sessão, nos quais o tema do nu do modelo vivo é retomado numa cena de interior de ateliê. No Descanso (Caldas da Rainha, Museu Malhoa, em depósito do Museu Nacional de Arte Contemporânea), a modelo é apresentada de costas, esquentando as mãos em um braseiro. Antes da Sessão é o quadro intitulado O Ateliê do Artista, hoje no Masp. A mesma modelo é apresentada sentada, com o dorso muito arqueado, sobre um estofo azul. O corpo brilha em plena luz ante a estufa acesa de uma grande chaminé angulosa. Na penumbra ao fundo aparece o pintor sentado fumando um cigarro e olhando atentamente para uma folha havia pouco acabada. Nos dois casos o tema do nu feminino é quase polemicamente afastado de qualquer idealização. A crítica da época percebeu a ambigüidade do intento do pintor. Rangel da Lima descreveu o nu do Descanso como “banal, descurado, de carnação flácida e palidamente viciosa”, ao mesmo tempo achando a “pose algo convencional de sacerdotisa clássica”; percebe-se também um certo convencionalismo no dorso da figura do Ateliê do Masp, arqueado de forma quase maneirista. Porém, a situação da modelo aquecendo-se ao calor da estufa no amplo e despojado ateliê onde o pintor, apartado na sombra, medita sobre sua obra, aproxima a cena da realidade cotidiana, de uma suspensão do tempo entre uma sessão e a outra. Malhoa tratará o nu feminino de maneira bem mais convencional nas grandes decorações posteriores ( A Ilha dos Amores, 1907, Museu Militar, Lisboa). Peccata Nostra, de 1920, mostra ainda a influência de Fortuny e da pintura de temas arqueológicos moralistas do fim do século anterior. Desse mesmo ano é um belo nu que tem o mesmo título, Descanso do Modelo, no qual o pintor retoma a pose da mulher de costas aquecendo-se ao braseiro, voltando assim a inspirar-se no realismo mais sóbrio das obras do primeiro período.

— Luciano Migliaccio, 1998


Fonte: Luiz Marques (org.), Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand, São Paulo: MASP, 1998. (reedição, 2008).



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