MASP

Anna Maria Maiolino

O herói, 1966/2000

  • Autor:
    Anna Maria Maiolino
  • Dados biográficos:
    Scalea, Itália, 1942
  • Título:
    O herói
  • Data da obra:
    1966/2000
  • Técnica:
    Acrílica sobre madeira, metal e tecido
  • Dimensões:
    59 x 46 x 7 cm
  • Aquisição:
    Doação da artista, 2015
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.01628
  • Créditos da fotografia:
    MASP

TEXTOS



Anna Maria Maiolino migrou para o Brasil em 1960, depois de iniciar seus estudos artísticos na Venezuela. Residente no Rio de Janeiro, participou do movimento chamado Nova Figuração, um grupo de artistas que preferia criar objetos ou propor experiências artísticas coletivas, distanciando‑se das formas tradicionais da arte, como a pintura de cavalete. Essas mudanças de linguagem implicaram um engajamento político dos artistas, na medida em que o caráter coletivo dos trabalhos incorporava temas de interesse público, como os fortes conflitos sociais pelos quais o país passava nos anos 1960. O herói pode ser interpretado como uma denúncia da perversão e do autoritarismo do Estado brasileiro sob o comando dos militares entre 1964 e 1985. A caveira é uma alusão à morte, alegoria da violência institucional do período. Embora exista uma compreensão de que 1968 inaugurou o período mais duro da ditadura militar, com a perseguição política sistematizada pelo decreto AI‑5, sabe‑se que, desde 1964, empregaram‑se métodos de controle, intimidação e extermínio no país, como a tortura e o desaparecimento. Assim, a obra de Maiolino antecipava a crítica às graves violações dos direitos humanos da ditadura civil-militar. O termo “herói” é uma ironia; coloca em dúvida o caráter dessa figura, que se orgulha de suas medalhas e está a serviço do poder. Esta é uma segunda versão da obra, apenas com as medalhas originais, já que a primeira foi destruída.

— Equipe curatorial MASP, 2017


Fonte: Adriano Pedrosa (org.), MASP de bolso, São Paulo: MASP, 2020.




Por Luiza Interlenghi
O herói (1966), pintura-objeto de Anna Maria Maiolino, traça, com irônica ousadia, a figura condecorada como descarnada, infernal, mas vazia. Medalhas, capacete e uniforme contornam a face-caveira que espelha a morte. Após o golpe militar no país, em 1964, a obra antevê o endurecimento da censura e a perseguição política, mas deixa claro que os que perpetuam a opressão têm seu fim. Nascida na Itália, Maiolino se mudou com a família (oposta ao fascismo) para Caracas; já no Rio desde 1960, estudou com Adir Botelho, aluno de Goeldi, e dialogou com Antonio Dias e Rubens Gerchman, artistas de linguagem crítico-figurativa. Participou de Opinião 66 (1966) e Nova Objetividade Brasileira (1967), mostras que retomaram temas sociais e do viver que redefiniram o construtivismo no Brasil. Maiolino se aproximou da xilogravura de cordel e da cultura de massa, como em Glu...Glu...Glu... (1967), com legendas sonoras num corpo reduzido à boca e ao intestino. Oposições marcam sua poética – rasgos e costuras na superfície do papel, entre verso e reverso. Central para a arte brasileira, Maiolino interroga o limite entre o subjetivo e o coletivo; observa a potência do feminino no curso do tempo. Explora o frágil e o rude, o nexo entre comer, viver e excretar, no desenho, vídeo, poema, fotografia, foto-performance e instalação. Propõe sínteses fortes, como quando, manipulando repetidamente a argila crua, aproxima o amassar o pão à produção do bolo fecal.

— Luiza Interlenghi, professora do Deprtamento de Artes, PUC-RJ, 2021





Por Adriano Pedrosa
Trabalhei com Anna Maria Maiolino em 2014 no projeto artevida, que co-curei com Rodrigo Moura no Rio de Janeiro. A mostra explorava as relações entre arte e vida, e Maiolino tinha uma presença em dois núcleos: artevida (corpo) e artevida (política). No segundo, incluímos uma obra-chave da artista, O herói (1966/2000), ao lado de uma pintura da colombiana Beatriz González, Africa Adiós (1968), um retrato da Rainha Elizabeth, ambas representações de estadistas cobertos de condecorações, em momentos em que seus países exerciam a opressão interna ou colonial. Naquele ano fui convidado a ser diretor artístico do MASP, e em 2015, Maioliono veio visitar o museu. Em nossa conversa, relembramos o prêmio MASP que ela ganhara em 2012, e ela mencionou a possibilidade de uma doação ao museu. Eu logo lhe disse que gostaríamos muito de uma obra da década de 60, pois estávamos aumentando o núcleo pop e da nova figuração brasileira daquele período, em particular das mulheres. Ela de pronto respondeu que lhe restava apenas O herói, mas que poderia doá-la ao museu. O trabalho chegou ao MASP em 2015, e logo se tornou um ícone do acervo, muito fotografado, postado e solicitado em empréstimo — esteve nas retrospectivas da artista no Museum of Contemporary Art de Los Angeles, em 2017, e no Padiglione D'Arte Contemporanea de Milão, em 2019. Quando não está em empréstimo, está sempre em exposição, e no espírito do Acervo em transformação, a mostra da coleção do museu, já esteve ao lado de Claudio Tozzi e Antonio Henrique Amaral, bem como de Robert Rauschenberg, e hoje está ao lado de Teresinha Soares. A atualidade e capacidade de transformação da obra é extraordinária, e ela parece ganhar novos significados e possibilidades de leitura ao lado de outras, bem como ao passar do anos e em diferentes contextos, no Brasil e no exterior, diante de heróis de ontem e hoje.

— Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP, 2020




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