MASP

Paul Cézanne

Cipião,

1866-68

  • Autor:
    Paul Cézanne
  • Dados biográficos:
    Aix-en-Provence, França, 1839-Aix-en-Provence, França ,1906
  • Título:
    Cipião
  • Data da obra:
    1866-68
  • Técnica:
    Óleo sobre tela
  • Dimensões:
    107 x 86 x 2 cm
  • Aquisição:
    Doação Henryk Spitzman-Jordan, Drault Ernanny de Mello e Silva, Pedro Luiz Correa e Castro, e Rui de Almeida, 1950
  • Designação:
    Pintura
  • Número de inventário:
    MASP.00085
  • Créditos da fotografia:
    João Musa

TEXTOS


Filho de um banqueiro, Cézanne estudou direito em Aix, mas, depois de conhecer as obras clássicas do Louvre, em Paris, e também Gustave Courbet (1819‑1877) e Édouard Manet (1832‑1883), resolveu dedicar‑se à pintura. Até a década de 1880, sua produção apresentava traços românticos, inspirada, sobretudo, pelo lirismo e pela técnica pictórica de Eugène Delacroix (1798‑1863), artista que estudou ao longo de toda a vida. Cézanne foi muito admirado por um restrito grupo de jovens artistas, embora tenha sido ignorado pelo público e rejeitado nas exposições oficiais. Desde 1899 até depois de sua morte, foi crescendo o interesse por sua obra, hoje considerada uma das bases da arte moderna. O modelo de Cipião era um dos poucos profissionais negros nos ateliês de Paris. Intérpretes da obra associam‑na aos debates abolicionistas da segunda metade do século 19 e comparam‑na à conhecida fotografia estadunidense As costas açoitadas (1863), na qual o escravo Gordon aparece em posição similar, com marcas de açoite. Assim, o ritmo das pinceladas e os tons ganham novos sentidos — lembram os cortes na carne. A obra documenta um diálogo intenso entre a arte moderna e os conflitos sociais da época. A tela fez parte da coleção pessoal de Claude Monet (1840‑1926).

— Equipe curatorial MASP, 2015

Fonte: Adriano Pedrosa (org.) MASP de bolso. São Paulo: MASP, 2020.




Por Kleber Amancio
A tela de Paul Cézanne (1839-1906), recentemente renomeada Cipião [Scipio], data de 1866-68. É próxima, em temporalidade e forma, à Madalena do mesmo artista. Avistamos um homem. Ele veste uma calça azul celeste, tem o dorso desnudo. Seu braço esquerdo se projeta sob a bancada concreta, amortece a cabeça. A mão esquerda, por seu turno, é alongada, confrangida, improvável. Extensão de seu estado sensorial. Seria a cena uma referência ao livro Sonho de Cipião? Estaria, nesse caso, o avô do protagonista descrevendo-lhe glórias vindouras, como na obra de Cícero? Outra comparação possível, bastante frequente, é com a famosa fotografia de Gordon, o ex-escravizado que escapou de uma plantation na Louisiana em 1863. Uma evidência documental da brutalidade do sistema escravista. As marcas físicas da violência terrivelmente habitam sua pele. Também em 1863 foi publicado na França uma versão traduzida de Among the pines; or, South in secession-time [Entre os pinheiros; ou, Sul em tempo de secessão] de Edmond Kirke (pseudônimo de James Roberts Gilmore), 1862. Uma peça que descreve o Sul dos EUA na época da Guerra Civil. Quem leva o protagonista para essa aventura é Scipio, um escravizado sulista. Tal qual na tela de Cézanne, vemos a dimensão humana da personagem. Ao mesmo tempo em que devaneia, seu equilíbrio é garantido pela força que exerce ao pressionar a banqueta com o outro braço. O limite do sonho está na concretude da vida, da realidade que se avizinha.

— Kleber Amancio, historiador da arte e professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, 2020

Fonte: Instagram @masp 27.11.2020




Por Luciano Migliaccio
A obra é datada de 1865 ou 1866 por muitos autores, baseadas no fato de Cipião, um modelo profissional, trabalhar na Academia Suíça, que Cézanne começou a freqüentar em 1865. Todavia, o artista continuou estudando naquela escola até 1869. Camesasca (1988, p. 102), seguindo Venturi, data o quadro de 1866-1868, notando semelhanças estilísticas com O Rapto de Proserpina, pintado pelo artista com certeza em 1867, no qual o próprio Cipião serviu como modelo. Para Venturi (1936, p. 88), o quadro do Masp O Negro de Cipião é a obra-prima da primeira fase de Cézanne Ele foi adquirido por Claude Monet e fez parte da coleção particular do pintor, até seu filho, Michel, vendê-lo ao Masp. A crítica ressalta no quadro a inuência de Delacroix, à qual se acrescenta possivelmente a inspiração nos retratos de negros de Géricault e em Daumier pelo uso da cor.

— Luciano Migliaccio, 2008

Fonte: Luiz Marques (org.) Catálogo do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. São Paulo: MASP, 1998 (reedição, 2008).

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