16.7.2026
11H - 11H30
INTRODUÇÃO
Regina Teixeira de Barros, curadora coordenadora e curadora do acervo, MASP.
11H30 - 13H
Mesa - redonda
GÊNESE ANDRADE
“Uma interrogação em marcha”: Flávio de Carvalho e os retratos dos modernistas
Flávio de Carvalho conheceu, a partir de 1927, Geraldo Ferraz, Mário de Andrade, Tarsila do Amaral, Oswald de Andrade, Patrícia Galvão, Sérgio Milliet e outros modernistas. A convivência foi intensa e duradoura, registrada em olhares cruzados entre os retratos deles feitos por Flávio e os textos de autoria do artista e dos retratados – tanto artigos sobre as obras de uns e outros, quanto comentários variados, que se complementam e instigam reflexões. Nesse jogo de reflexos, entre a “expressão fundamental do modelo” e a “interioridade do artista”, as imagens surpreendem devido à variedade de métodos, técnicas, estilos, expressões e gestos. O que esses “retratos psicológicos” – “volúpia de formas sobre a tela” – revelam das relações desse círculo modernista e o que significam na vasta produção deste “antropófago ideal”? Entre o que Flávio extrai do retratado, o que este proporciona e o que o artista projeta de si mesmo, como decifrar esses inquietantes retratos?
THIAGO GIL
Entre vazios e linhas de força: arqueologia e psicanálise na obra de Flávio
de Carvalho
A arqueologia e a psicanálise foram dois campos do saber moderno que atravessaram a experiência intelectual de Flávio de Carvalho como artista-pesquisador que foi. Em sua biblioteca, hoje preservada na Universidade Estadual de Campinas, encontram-se diversos volumes das publicações do Museu Britânico sobre suas coleções arqueológicas, especialmente do Oriente Médio, adquiridos possivelmente nos tempos de estudante de engenharia civil em Durham, antes de seu retorno e fixação em São Paulo, no início da década de 1920. Há também uma quantidade razoável de obras psicanalíticas de autores
como Sigmund Freud, Carl Jung e Otto Rank. Ambas eram, para ele, ciências do fragmento e da ruína, operando sobretudo nos vazios do tempo, naquilo que memória individual e coletiva só acessam ao renunciarem a uma concepção linear e mecânica de tempo. Nesta apresentação, discuto como Carvalho articulou arqueologia e psicanálise em sua prática criativa, particularmente como escritor e retratista, perseguindo uma noção de tempo ancestral que emergiria no presente em trocas afetivas com imagens e com outros corpos.
Mediação: Regina Teixeira de Barros, curadora coordenadora e curadora do acervo, MASP
13H - 14H
Intervalo
14H - 16H
Mesa - redonda
VERÔNICA STIGGER
Psicoetnografia: o método desvairado de investigação de Flávio de Carvalho
Em A única arte que presta é a arte anormal, texto publicado no Diário de S. Paulo em 24 de setembro de 1936, Flávio de Carvalho propôs que se criasse um novo método de estudo, a psicoetnografia, unindo a então nascente etnografia à psicanálise. Trata-se de um método que o artista já vinha aplicando desde pelo menos a Experiência nº 2, realizada em meio a uma procissão de Corpus Christi. Nesta fala, veremos como se constitui esse método tão particular de ação e pensamento desenvolvido por Carvalho – um método que se mostra algo desvairado no duplo sentido de que, por um lado, enlouquece a ciência na qual se baseia e, por outro, opera a partir da montagem de fragmentos.
MARCELO MORESCHI
A História e os perigos da polêmica
Que tipo de história ou historiografia permitiria pensar Flávio de Carvalho não como excentricidade lateral, mas como ponto de atrito capaz de desorganizar as narrativas da modernidade e das vanguardas no Brasil? Que desmontagem das categorias “modernismo brasileiro” e “22”, bem como de sua historiografia e de seus lugares comuns, ela exigiria ou produziria? O centenário da Semana de Arte Moderna mostrou o limite das operações revisionistas: mesmo a disrupção acaba reabsorvida pela reposição do marco. Como exercício especulativo, este trabalho recorre à psicoetnografia carvalhiana — concebida como substituta da estética e da história da arte — e à sua ideia de um gráfico de cultura do século 20, para imaginar uma outra escrita da arte moderna no Brasil. Nessa chave, a formulação de Carvalho sobre a História que, ameaçada pela polêmica, se põe em segurança ajuda a redescrever a estabilização narcísica do modernismo e permite testar, dentro desses limites, uma história menos estabilizada e naturalizada, mais atenta aos perigos do atrito e da invenção continuada.
LUIZ CAMILLO OSORIO
Flávio de Carvalho: experiência como processo e corpo
Flávio de Carvalho era uma usina de ideias transgressivas no interior de um modernismo poeticamente acanhado. Fez da ideia de experiência uma chave de articulação entre arte e política. Trabalhando na fronteira entre linguagens e territórios, descontruía erraticamente qualquer pretensão de especificidade dos meios de expressão. Tudo falava em sua obra, tendo dado ao corpo um lugar de propulsão performativa. O corpo como experiência e a experiência como corpo. Sem fazer concessões de nenhuma ordem, Carvalho foi, acima de tudo, um solitário. Apesar de membro fundador e principal agitador do Clube de Arte Moderna (CAM) de São Paulo, no começo dos anos 30, sua obra foi sempre marginalizada. Este lugar à margem, de certo modo, é o que nos interessa na perspectiva de uma leitura à luz do presente. Começaremos tratando daquela que talvez tenha sido a “performance” mais marcante e singular de sua trajetória, a Experiência nº 2, de 1931. Estavam presentes aí vontade conspirativa, risco, delírio e insolência. Em uma São Paulo ainda extremamente provinciana, ele resolve testar os limites de tolerância de uma massa religiosa ferida em seus códigos de comportamento. Durante uma procissão de Corpus Christi ele veste um vistoso boné verde de veludo e caminha, de forma atrevida, na contramão do fluxo de fiéis. Depois de um tempo de aparente invisibilidade e de incômodo tolerado, resolve partir para uma provocação deliberada. Resultado: ele só escapou de um linchamento pela intervenção da polícia. Os desdobramentos poéticos deste ato, deslocam-se da antropologia para as artes, sem abrir mão do potencial político que advém deste não-lugar do trabalho. Um dos focos desta palestra será pensar a força política deste não-lugar ou destes lugares heterogêneos que sua obra vai abrindo e deslocando. Partindo da Experiência nº2, passando pelo Teatro da Experiência (1933) e pelo New Look (1955), abordaremos o que fica explicitado como transitoriedade entre arte e vida, entre experimentação e experiência.
Mediação: Mateus Nunes, curador assistente, MASP