Considerado um dos precursores das práticas conceituais (que privilegia a ideia e não a forma) nas artes visuais, Marcel Duchamp é um dos mais importantes artistas do século 20. No início da década de 1910 realizou experimentos com objetos comuns assinados e apresentados como obras de arte, os chamados ‘ready mades’. Em toda sua trajetória o artista desenvolveu também trabalhos sobre os efeitos óticos que afetam a percepção do espectador, e sobre a construção do espaço tridimensional a partir das possibilidades de suportes bidimensionais — desde pinturas sob a influência do cubismo no início de sua carreira, até o Etant donné (1946-1966), um dos seus últimos trabalhos, uma imagem entrevista por um buraco de uma porta. Em 1935, Duchamp realizou pela primeira vez um conjunto de discos óticos, reeditados sob sua supervisão diversas vezes — a série do MASP foi realizada em 1965, pela Galeria Schwarz, em Milão. Neste trabalho, abandonando os instrumentos tradicionais como a tinta e o pincel, Duchamp procura uma outra dimensão entre pintura e escultura, explorando os efeitos visuais ligados à ilusão ótica. A série Disco em movimento foi uma possibilidade encontrada pelo artista de criar a sensação de relevo por meio do movimento incorporado dentro das obras. Os discos óticos, quando em rotação, fazem surgir, em relevo, formas, muitas vezes inesperadas, de objetos tridimensionais. Interessa a Duchamp trabalhar sobre a visão, que recebe a impressão do movimento devido à ação do cérebro, integrando as diferentes formas em um registro contínuo. As figuras dos discos apresentam pontos centrados que parecem imóveis, e por consequência distantes, e pontos ligeiramente fora do centro que parecem se locomover mais ou menos rapidamente, dependendo também da posição do espectador.
— Guilherme Giufrida, curador assistente, 2022
Por Silvia Miranda Meira
Em 1935, Duchamp realizou em Paris quinhentos conjuntos de discos óticos não numerados e não assinados dos quais trezentos foram perdidos durante a guerra; em 1953, em Nova York, foram feitos mil conjuntos de discos, também não numerados e sem assinatura, dos quais seiscentos foram destruídos acidentalmente. Em 1959, em Paris, o artista reeditou cem exemplares do conjunto, numerados de 1 a 100 e assinados a tinta: “Marcel Duchamp”, dos quais apenas cinqüenta acabaram localizados. Em 1963, foram feitos, em Nova York, dezesseis tiragens numeradas de I a XVI, assinadas a tinta, numa face “M. D.”, e na outra “Marcel Duchamp”. Enfim, em 1965, em Milão, foram realizadas, pela Galeria Schwartz, cento e cinqüenta tiragens a partir da edição de 1953, sob supervisão do próprio Duchamp, numeradas de 1/150 a 150/150 e assinadas a tinta “M. D.”, rubricadas “ROTORCLICF 1935-1953/Edition Galerie Schwartz, Milan”. A obra do Masp Roto-Relevo faz parte desta última série.
Abandonando os instrumentos tradicionais como a tinta e o pincel, Marcel Duchamp procura uma outra dimensão entre pintura e escultura, utilizando os efeitos visuais ligados à ilusão ótica. O Roto-Relevo foi uma possibilidade encontrada pelo artista de criar a sensação de relevo por meio do movimento incorporado dentro da obra. Os discos óticos, quando em rotação, fazem surgir, em relevo, formas inesperadas de objetos. O tema é a representação figurativa de determinadas percepções: cheio, vazio; moto ascendente, moto descendente; dentro e fora; moto em linha reta, moto circular, até chegar ao branco e preto, à luz total e à ausência de luz. A visão recebe a impressão do movimento devido à ação do cérebro, que integra as diferentes formas em uma continuidade. As figuras dos discos apresentam pontos centrados que parecem imóveis, e por conseqüência distantes, e pontos ligeiramente fora do centro que parecem se locomover mais ou menos rapidamente de acordo com a proximidade do espectador.
Na primeira década do século XX, o movimento cubista e os futuristas italianos sugerem em suas obras a ilusão do movimento, obcecados pela decomposição da forma gerada pelos efeitos da velocidade no mundo mecanizado. Duchamp se interessava em reivindicar um estatuto criativo do objeto de arte, que acreditava ser um fazer tanto do olho quanto da mente, trazendo assim o movimento dos objetos representados dentro da própria obra e propondo uma nova relação entre objeto e espaço, espaço da obra e espaço do espectador. Seus questionamentos em torno do círculo, que estão presentes desde Moedor de Café (1911), Roda de Bicicleta (1913) e Máquina de Moer Chocolate Número 2 (1914), darão origem aos seus chamados quadros óticos e formarão alguns dos elementos de O Grande Vidro, trabalho de indagação teórica de duração de oito anos, não concluído para muitos estudiosos. Os estudos de Duchamp da década de 1920, entre eles seus primeiros filmes abstratos, utilizam também círculos e espirais para criar jogos óticos usando a percepção da retina e as estruturas perceptivas da mente humana. Os Roto-Relevos são portanto a concretização dinâmica da série de experimentos referentes à representação estática do movimento que Duchamp realizara nos anos anteriores. O conjunto foi exposto pela primeira vez em 1935, no Salão Anual de Invenções em Paris, junto com objetos de uso diário e de interesse comercial. Em 1936, na exposição Arte Fantástica, Dadá e Surrealismo, organizada por Alfred Barr no Museu de Arte Moderna de Nova York, a obra foi apresentada como uma das onze mais significativas no percurso do artista. Com efeito, Duchamp antecipa nessa produção as pequisas da arte cinética, que marcaram as décadas de 50 e 60.
— Silvia Miranda Meira, 1998