O artista Randolpho Lamonier trabalha principalmente com tecidos e apropriação de objetos, além de vídeos, fotografias e colagens. Na obra Em 2085 povos originários retomam a Amazônia, a frase é costurada sobre um cobertor azul com letras de ângulos arredondados e formas assimétricas. Há uma série de representações de folhas e animais feitos com bordados, aplicações em crochê, diferentes tecidos, cordas, colares de miçangas e alternâncias entre costuras à máquina e à mão livre. O trabalho é parte da série Profecias, realizada desde 2018, na qual estandartes bilaterais são construídos com materiais e objetos diversos, utilizando técnicas e procedimentos variados. As Profecias misturam narrativas pessoais e públicas e propõem um futuro mais promissor especialmente para grupos sociais historicamente oprimidos, como mulheres, negros, indígenas, pobres e populações LGBTQIA+. Podemos associá-las às produções gráficas ativistas, como cartazes e bandeiras com frases de protesto usadas em manifestações, mas também aos diversos usos dos têxteis ao longo da história da arte. Os trabalhos dessa série de Lamonier são sempre marcados por uma data hipotética e muitas vezes contrastam questões atravessadas por violências e disputas de poder à maciez e ao conforto sugeridos pelos tecidos. Não raro, incorporam citações e elementos da linguagem usada na internet, alternando registro histórico, revolta social e ficção.
— Leandro Muniz, assistente curatorial, MASP, 2023