MASP

SALA DE VÍDEO: REGINA VATER

2.7—15.8.2021
Regina Vater é uma das pioneiras a utilizar o vídeo como dispositivo de experimentação visual na arte brasileira. Depois de estudar pintura de influência expressionista e pop nos anos 1960 no Rio de Janeiro, em uma temporada vivendo em Paris, em 1974, foi chamada por acaso para filmar uma peça do grupo de Ruth Escobar. Desde então, o vídeo marca grande parte de sua produção, seja por meio de registros de happenings e performances, vídeo e fotomontagens ou instalações audiovisuais. 

Conselhos de uma lagarta (1976) é uma instalação em dois canais composta por um vídeo homônimo e outro intitulado Chama [Flame]. O primeiro intercala falas de Alice no país das maravilhas (1865) de Lewis Carroll transcritas em uma agenda preenchida com anotações e rasuras, um compasso sonoro bem-marcado e o rosto de Vater registrado durante meses no mesmo ponto de sua casa no meio tempo entre suas atividades cotidianas. ‘Toda hora que eu me lembrava da câmera eu corria para frente dela e me filmava, minha premissa era de tentar que ela me surpreendesse’, comentou.  

Vater lê passagens do livro de Carroll em que uma lagarta aconselha a protagonista a aceitar sem ansiedade o tempo e as mudanças de tamanho do corpo. Do lado oposto, na outra tela, uma sequência de closes de olhares de várias pessoas, inclusive alguns amigos da artista (como Lygia Clark e Wally Salomão), completa a instalação. ‘Teu olho é meu espelho’, diz Vater a partir de Clark, isto é, em suas palavras ‘eu sou o que você me permite ser, pelo jeito com que você me vê’. 

O trabalho foi pensado originalmente para ser exposto na 14ª Bienal de São Paulo (1977) – o que acabou não se concretizando – em conjunto com Tina América (1976), um dos mais icônicos da artista. Ambos testemunham sua construção e aprofundamento subjetivo e metafísico através de autorretratos. Sem o artifício da encenação de múltiplas personagens, Conselhos de uma lagarta se apoia em elementos linguísticos – mensagem, emissor e receptor – explicitando, ainda, os canais de comunicação entre obra e espectador. 

Mostrados à esquerda da Sala de vídeo, Vídeo ART e ARTropophagy (ambos de 1978) revelam como Vater, nesse período, se aproxima do vídeo para desenvolver ideias e procedimentos conceituais. O objeto artístico se concretiza aqui nos rastros e processos efêmeros de sua fabricação gestual e vocabular. Nota-se um desejo de reencantamento do mundo pela ART, muitas vezes recriada em espaços dito naturais – como as areias da praia de Video ART, filmado por Lygia Pape, outra importante artista do vídeo – ou ingerida e expelida pela própria Regina, tornando-se matéria viva que flutua dentro de uma bexiga de ar em ARTropophagy

Esses dois trabalhos integraram uma grande série de fotografias, concebidas para uma exposição realizada em 1978 em São Paulo, em que ART, ou ARTE, aparece de diversas formas e situações. Em um contexto de desmaterialização e impasse, Vater persegue incessantemente o significado dessa palavra, insistindo na sua reconstrução e desmistificação, e afirmando seu potencial, ainda que provisório, de articular e instaurar outras realidades.

CURADORIA Guilherme Giufrida, curador-assistente, MASP

Ao longo de 2021 e de 2022, a programação da Sala de Vídeo integra o ciclo das Histórias brasileiras no MASP, e inclui trabalhos de Ana Pi, Teto Preto, Regina Vater, Zahy Guajajara e Dominique Gonzalez-Foerster.