MASP

Antropofagias: roteiros pela arte brasileira do século 20

Horário
15h-17h
Duração do Módulo
8-29.7 e 5-12.8 (6 aulas)
Investimento

5 x R$ 208,00*

Amigo MASP

5 x R$ 176,80*

*parcelamento apenas em cartão de crédito

Coordenação

Thiago Gil

A Antropofagia de Oswald de Andrade foi um dos projetos mais potentes de descolonização do imaginário criador brasileiro no século 20. Inspirada na antropofagia ritual Tupinambá, propôs outra compreensão da história do mundo ocidental, a partir de elementos próprios à formação cultural e social brasileira. A devoração do Outro compõe um entendimento da experiência humana como busca e incorporação permanentes do não-eu e da diferença, desfazendo noções estáticas de identidade. O valor político e poético dessa proposta foi trabalhado por diferentes agentes culturais brasileiros, do teatro à música, ao cinema, à poesia e às artes visuais, e continua atual.   

O curso se inicia com uma discussão sobre a definição de um processo criativo antropofágico. Faremos uma leitura crítica do Manifesto Antropófago e da Revista de Antropofagia, assim como dos desdobramentos que o conceito de Antropofagia teve na obra de Oswald de Andrade nas décadas de 1930 a 1950. As aulas seguintes focalizam artistas cujas trajetórias são contemporâneas à Antropofagia e também artistas de gerações posteriores que têm o pensamento de Oswald de Andrade como referência histórica. O curso é finalizado com uma apresentação sobre interpretações possíveis da Antropofagia como discurso curatorial e expográfico.

Planos de aulas

Aula 1 – 8.7.2019
O que (não) é Antropofagia? 

Qual era o projeto estético da Antropofagia de Oswald de Andrade? Valorização da “cultura popular”, apropriação, colagem, humor, sátira, erotismo podem ser considerados elementos de uma prática criativa antropofágica? Orientada por esses questionamentos, esta aula apresenta uma leitura crítica do Manifesto Antropófago (1928) e da Revista de Antropofagia (1928-1929), assim como da presença da Antropofagia nas peças de teatro e textos filosóficos escritos por Oswald de Andrade nas décadas de 1930 a 1950.    

Aula 2 – 15.7.2019
O “primitivo” como antídoto: Tarsila do Amaral, Vicente do Rego Monteiro, Victor Brecheret e Maria Martins

Considerada uma antecipação da Antropofagia, a tela A Negra (1923), de Tarsila do Amaral, encaminhará a discussão desta aula. A pintura será analisada em sua relação com a “negrofilia” e o “primitivismo” que dominavam Paris na década de 1920, período em que Tarsila manteve ateliê na capital francesa. Outras pinturas produzidas pela artista nesse período -- em que se inclui sua “fase antropofágica” -- serão abordadas. Essa discussão será estendida também à obra de outros três artistas: Vicente do Rego Monteiro, que se dedicou ao estudo de referências etnográficas e arqueológicas sobre povos indígenas amazônicos na década de 1920, e Victor Brecheret e Maria Martins, que produziram esculturas a partir de pesquisas sobre o mundo indígena, nas décadas de 1940 e 1950.

Visita ao Acervo em transformação: Vicente do Rego Monteiro, Menino nu e tartaruga, 1923; Urna marajoara, 400-1350 d.C.; exposição Tarsila popular.

Aula 3 – 22.7.2019
Cor, corpo e antropofagia: Hélio Oiticica e Lygia Clark 

Nesta aula focada nos dois principais representantes do neoconcretismo brasileiro, veremos como as pesquisas em torno da participação do espectador, da arte ambiental, das proposições e objetos relacionais podem se cruzar com uma das muitas “vacinas antropofágicas” contra a colonização do pensamento que se pode extrair do Manifesto Antropófago: a desestabilização das posições de sujeito e de objeto na arte. Serão discutidos desde os Relevos espaciais aos Parangolés e aos penetráveis, como Tropicália, de Hélio Oiticica, até Bichos, Estruturas vivas e a Baba Antropofágica, de Lygia Clark.
 
Aula 4 – 29.7.2019
Antropopfagias? Waldemar Cordeiro, Grupo Rex e Teresinha Soares

Em que medida a nova figuração e outras reverberações da arte pop no Brasil na década de 1960 podem se relacionar com as propostas da Antropofagia? No Manifesto Antropófago, Oswald de Andrade previa que o cinema americano informaria a reação antropófaga contra o homem vestido. Estaria aí uma pista para se pensar um cruzamento entre a Antropofagia e o universo da “indústria cultural”? Esta aula apresenta a experiência coletiva do Grupo Rex (Geraldo de Barros, Wesley Duke Lee, Nelson Leirner, Luiz Paulo Baravelli, José Resende, Carlos Fajardo e Frederico Nasser). A ela, somam-se as experiências individuais de Waldemar Cordeiro, em sua fase dita “popcreta”, e de Teresinha Soares, tensionando questões de gênero nessa aproximação entre antropofagia e arte pop.

Visita ao Acervo em transformação: Teresinha Soares, Morra usando as legítimas alpargatas, da série Vietnã, 1968.

Aula 5 – 5.8.2019
Conceitualismo antropofágico? Regina Silveira, Anna Bella Geiger e Lenora de Barros

Nesta aula, discutiremos a noção de conceitualismo – e sua diferença em relação a uma definição mais restrita de arte conceitual – para averiguar a possibilidade de se imaginar um conceitualismo antropofágico, com base nos trabalhos de Regina Silveira, Anna Bella Geiger e Lenora de Barros. Serão discutidos trabalhos dessas três artistas que operam criticamente com referências da história da arte ocidental e da história política do Brasil, muitas vezes tratados com sarcasmo, ironia e humor, como também fazia a Antropofagia.   

Aula 6 – 12.8.2019
Ver com olhos livres: Antropofagia como curadoria no MASP e na 24ª Bienal de São Paulo.

Será discutida a relação de Lina Bo Bardi com as ideias de Oswald de Andrade, com base na análise de alguns projetos de exposições concebidos pela arquiteta. Será avaliado se e em que medida é possível identificar nessas soluções expográficas, especialmente para a pinacoteca do MASP, mas também para mostras como A mão do povo brasileiro (1969), ecos do projeto antropofágico e de sua defesa de um mundo não catalogado, aberto às contaminações culturais. Essa investigação se estenderá à 24ª Bienal, curada por Paulo Herkenhoff. A mostra teve o Manifesto Antropófago como conceito norteador para as quatro exposições que a compuseram e levou sua proposta de atualização da Antropofagia às estratégias curatoriais e expográficas.
 
Visita ao Acervo em transformação: vista geral dos cavaletes de vidro.

Coordenação

Thiago Gil é doutor em história, crítica e teoria da arte pela Universidade de São Paulo (2018), com pesquisa sobre a relação de Oswald de Andrade com as artes visuais, e mestre na mesma linha de pesquisa (USP, 2012), com estudo sobre a percepção do movimento surrealista no Brasil. Organizou o Ciclo de Encontros História(s) da Arte no Brasil (2011-2012), na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo. Entre 2011 e 2016, foi colaborador da Enciclopédia de Artes Visuais do Instituto Itaú Cultural como pesquisador e redator. É autor do livro Uma brecha para o surrealismo (Alameda, 2015) e Coordenador de Pesquisa e Difusão da Fundação Bienal de São Paulo. 

Conferencistas