O seminário Histórias da loucura e do delírio explora a relação entre arte e psiquiatria e como, juntas, as duas áreas se cruzam com concepções de raça, gênero, sexualidade, deficiência física, bem como histórias de colonialidade/decolonialidade. Os palestrantes refletem sobre as diferenças interculturais quanto às experiências de visões e ao que a cultura ocidental define como “delírio”. Abordam também redes de cuidados e espaços de cura, que promovem formas não hierárquicas de relações e interdependências. O programa coloca em primeiro plano questões passadas e presentes de representação e autorrepresentação nas interseções de arte e cuidado; o confinamento e a imaginação criativa; artistas e reforma psiquiátrica; cura e cosmologias indígenas; recreação e resiliência psicodélica; e se volta para artistas e atores culturais contemporâneos cujas obras possibilitam processos participativos de pertencimento com a diferença, promovendo uma compreensão ampliada das múltiplas formas de ser no mundo.
ORGANIZAÇÃO
Kaira M. Cabañas, curadora adjunta de Arte Moderna e Contemporânea, MASP
COORDENAÇÃO
André Mesquita, curador, MASP; Glaucea Helena de Britto, curadora assistente, MASP; com assistência de Bruna Fernanda, assistente curatorial, MASP
TRANSMISSÃO AO VIVO
O seminário será online, gratuito e transmitido ao vivo pelo canal do MASP no YouTube. As falas serão traduzidas simultaneamente para o português e o inglês, com interpretação em Libras.
CERTIFICADO
Para receber o certificado de participação, é necessário assinar a lista de presença que será disponibilizada por meio de um link fornecido durante o seminário.
13.10.2026
Terça-feira
11H
INTRODUÇÃO
Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP
Kaira M. Cabañas, curadora adjunta de Arte Moderna e Contemporânea, MASP
11H10—13H
Mesa-redonda
ANNA KIFFER
Antonin Artaud depois do México
Muitos mitos foram contados sobre a viagem de Antonin Artaud (1896-1948) ao México, em 1936. Os fatos, no entanto, indicam um retorno tumultuado ao território europeu, sua prisão na Irlanda em 1937, sua deportação para a França e seu “desaparecimento” – durante dois anos – no Hospício de Ville-Évrard. Se esses fatos narram a história de sua “loucura”, eles também assinalam, em uma leitura a posteriori, como sua obra, a partir desse evento (México + instituições psiquiátricas), construirá diferentes plataformas para a arte contemporânea (experimentos com o corpo, cadernos de artista, entre outros). Porém, também indicam — e este será o foco de nossa apresentação — o indício de um deslocamento radical da episteme ocidental e seus efeitos no que chamaríamos de um novo imaginário do corpo e da escrita.
RACHEL SILVERI
“Aponta para a minha própria melodia”: as abstrações de Sonja Sekula
Esta fala aborda a maneira como o surrealismo e os estudos sobre o movimento trataram a questão da loucura, oferecendo uma crítica fundamentada no feminismo, na teoria queer e nos estudos sobre a loucura (mad studies, literalmente, “estudos loucos”). Minha contribuição concentra-se em Sonja Sekula (1918-1963), artista suíça cuja carreira, que se estendeu por várias décadas, produziu uma rica variedade de práticas abstratas em diferentes suportes. Lésbica assumida que circulou nos meios surrealistas e do expressionismo abstrato, Sekula viveu períodos alternados dentro e fora de clínicas psiquiátricas, em Nova York e na Suíça. A bibliografia existente sobre Sekula estabeleceu sua biografia, narrou o desenvolvimento estilístico de sua obra, situou sua prática em diálogo com a arte feita por seus amigos e formulou leituras que destacam seu diagnóstico médico de esquizofrenia. Afastando-se de um modelo biomédico que enfatiza a doença e a patologia, esta fala analisa, por outro lado, as inovações nos traços de Sekula, que propõe um novo tipo de automatismo abstrato – o qual é produtivamente aberto a construções de mundo feministas, queer e da loucura.
MOLLY SUPERFINE
Romare Bearden e as arquiteturas do cuidado
A monumental obra Cityscape [Paisagem urbana] (1976), de Romare Bearden (1911-1988), tem sido notavelmente pouco estudada nas análises acadêmicas sobre a fase final da carreira do artista, ofuscada por trabalhos semelhantes em termos formais, como The Block [O quarteirão] (1971). Essa omissão decorre de uma invisibilidade forçada: após ter sido proposto e aprovado pela Comissão de Saúde e Hospitais de Nova York em 1974, o mural – com cerca de 8 metros de comprimento – foi inaugurado em 1976 no Hospital Lincoln, no Bronx, mas acabou sendo retirado em menos de uma semana, após um vereador da cidade tê-lo classificado como “obsceno”. A obra foi então mantida em um depósito até sua instalação, em 1983, no Hospital Bellevue, em Manhattan. Eu proponho uma nova leitura de Cityscape pela perspectiva da arquitetura institucional, analisando o papel que a obra desempenha no corredor da capela do Bellevue. Exploro a ressonância comunitária desse curioso local de instalação, considerando especialmente a contestação inicial que a obra enfrentou sob a acusação de apresentar imagens blasfemas. Em oposição a isso, defendo que o mural estende uma ética do cuidado à instituição médica na qual o próprio Bearden fora internado como paciente psiquiátrico na década de 1950.
Mediação: Yudi Rafael, curador assistente, MASP
13H—14H30
Intervalo
14H30—15H30
Mesa-redonda
LULA WANDERLEY e REGINA PEIXOTO
Varianças
A conversa entre Lula e Regina será dividida em três momentos. No primeiro, vão falar sobre a chegada dela ao Espaço Aberto ao Tempo e sobre seus momentos de dolorosa introversão/incomunicabilidade. Seus encontros com Lula nesses instantes; suas trocas de mensagens escritas em pequenos papéis (a comunicação possível). De como a poética desses encontros é transferida paulatinamente para esses escritos, que ganham autonomia e se transformam em poesias. No segundo momento, vão abordar como a poesia de Regina fala de questões subjetivas mais profundas, ao mesmo tempo sem abandonar a descrição de um cotidiano poeticamente banal. Isso traz uma leveza à sua poesia que encantou alguns poetas e críticos literários. Por fim, vão refletir sobre a poesia como mediadora, não mais do encontro consigo, mas do encontro com o mundo: com todos que quiserem lê-la.
Mediação: Glaucea Helena de Britto, curadora assistente, MASP
15H30—16H30
Conferência
MATT BODET
Alucinação®
Cada vez mais, as “alucinações” da inteligência artificial (IA) são vistas como falhas produtivas: resultados inesperados que geram novas imagens, linguagens, estéticas e lucros. A alucinação tornou-se um campo de experimentação, investimento e fascínio; no entanto, na mente humana, ela continua a ser patologizada, vigiada e tratada como uma condição que exige correção. Eu defendo que esse não é um fenômeno novo, mas a ampliação de uma história na qual a loucura atuou como um recurso da produção cultural, ao passo que as pessoas consideradas loucas permanecem excluídas, internadas ou marginalizadas. Das apropriações modernistas da estética da loucura aos sistemas de IA, a loucura continua sendo explorada na busca de valor artístico e econômico, ao mesmo tempo em que se nega autoridade às vozes dos loucos. Esta fala examina tais contradições sob a perspectiva da estética da loucura e da história cultural, contestando as estruturas políticas e econômicas que separam formas lucrativas de instabilidade da experiência vivida da loucura, assim como questionando a quem é permitido o desvio, a criação e a voz sem que seja reduzido a um erro.
Mediação: Kaira M. Cabañas, curadora adjunta de Arte Moderna e Contemporânea, MASP
14.10.2026
Quarta-feira
11H—11H30
Conferência
SUSAN BURCH
Ressignificar o confinamento: o Canton Asylum na Dakota do Sul
Entre 1902 e 1934, o Canton Asylum for Insane Indians – uma instituição psiquiátrica federal na Dakota do Sul, EUA, construída para confinar indígenas norte-americanos – manteve encarceradas centenas de pessoas de dezenas de nações indígenas (ou nativas). No entanto, a detenção no “Asilo para Indígenas”, tal como foi vivenciada pelas famílias, não representava nem o início nem o fim da história. A partir de um mapa feito à mão, uma colcha de retalhos e outras fontes visuais e materiais, esta fala coloca o parentesco e a memória indígenas no centro desta fala para recontar e ressignificar a história de Canton. Esses objetos – produzidos e compartilhados por pessoas que foram afetadas pelas violentas ações de Canton – revelam aquilo que a internação capacitista colonial visava suprimir.
Mediação: Bruna Fernanda, assistente curatorial, MASP
11H30 —12H30
Mesa-redonda
JEAN KAHLFA
O erro memorável de Frantz Fanon: socioterapia e cultura no Hospital Psiquiátrico de Blida-Joinville, Argélia
Em 1952 e 1953, Frantz Fanon foi orientado por Francesc Tosquelles, um psiquiatra anarquista catalão, pioneiro da socioterapia e que transformou a assistência à saúde mental em hospitais psiquiátricos. Em 1954, durante a Guerra de Independência da Argélia, Fanon tornou-se psiquiatra no hospital segregado de Blida-Joinville, construído em 1933 com base nos projetos do psiquiatra colonial Antoine Porot. Apesar de ter introduzido reformas radicais, a abordagem de Fanon inicialmente não foi capaz de tratar a população “nativa”. Isso o levou a reavaliar sua metodologia, concentrando-se nas dimensões culturais da doença mental e criando a etnopsiquiatria. Esta fala expõe essa trajetória complexa, essencial para a compreensão do pensamento e da prática de Fanon.
ABDESLAM ZIOU ZIOU
Pensamento labiríntico: antipsiquiatria e terapias populares no Marrocos
Esta fala examina o conceito de “pensamento labiríntico”, desenvolvido pelo psiquiatra marroquino Abdellah Ziou Ziou em seu trabalho no Pavilhão 36 do Hospital Psiquiátrico de Berrechid, no final da década de 1970 e no início da de 1980. Influenciado pela psicoterapia institucional e pela antipsiquiatria, Ziou Ziou buscou repensar a prática psiquiátrica a partir das trajetórias terapêuticas concretas de pacientes no Marrocos – muitos dos quais haviam se submetido a formas de cuidado popular antes de serem internados no hospital. Em vez de contrapor as práticas psiquiátricas às populares, o “pensamento labiríntico” surgiu como um modo de desenvolver a escuta em um contexto social e territorial específico. A ideia propunha uma abordagem flexível e não linear do sofrimento psíquico, atenta à linguagem, ao ambiente e aos modos de expressão dos pacientes. Ao circular por diferentes universos terapêuticos, essa prática buscava tornar a psiquiatria aberta a outras formas de conhecimento e criar as condições para um encontro mais situado e recíproco com os pacientes.
Mediação: André Mesquita, curador, MASP
12H30—14H
Intervalo
14H—15H30
Mesa-redonda
BENJAMIN BREEN
Entrelaçamentos no Arquivo da História Psicodélica
Esta fala examina as culturas visuais emergentes e globais da psicodelia, do período que vai da década de 1850 até a de 1960, fundamentada parcialmente em filmes, imagens e gravações de áudio de arquivo reunidos como parte do Psychedelic History Archive (psychedelicarchive.com). Ao reconsiderar esses materiais, podemos começar a perceber o quão radicalmente diferente a cultura visual inicial da psicodelia era em comparação à estética de pôsteres e capas de discos que, mais tarde, viriam a defini-la no imaginário popular. A fala analisa o que essas imagens, esses filmes e essas gravações – que muitas vezes são ignorados – revelam sobre o entrelaçamento global das áreas de ciência, conhecimento indígena e experimentação artística que moldou a história da psicodelia.
BEATRIZ CAIUBY LABATE
Das plantas sagradas à ciência psicodélica: raízes indígenas e silêncios coloniais
A apresentação analisa como saberes indígenas contribuíram para a constituição do movimento psicodélico moderno, ao mesmo tempo em que foram, em grande medida, marginalizados ou reduzidos a referências simbólicas no interior da ciência e da cultura ocidentais. Em diversas cosmologias indígenas, experiências visionárias e “voos xamânicos” não são compreendidos como experiências individuais, mas como deslocamentos ontológicos que implicam riscos profundos: perder-se entre mundos, transformar-se em animal ou ancestral, ou não conseguir retornar ao estado ordinário de existência. Tais concepções podem ser aproximadas, ainda que de forma necessariamente assimétrica, das formulações ocidentais sobre os riscos associados ao uso de substâncias psicoativas, como “enlouquecer” ou “morrer”. A partir de debates sobre colonialidade e epistemologia, a fala enfatiza perspectivas relacionais de cura, interdependência e pertencimento, nas quais a saúde emerge de redes de relação entre humanos, não humanos e territórios. Por fim, discute-se a centralidade do Sul Global na produção desses saberes.
NICHOLAS POWER
A revolução psicodélica substitui o renascimento psicodélico
É hora de abandonar o renascimento psicodélico. A extrema-direita avança no Ocidente, dos EUA à Rússia e à Argentina. A vigilância estatal comunista da China é vendida por toda a Ásia. Estados mafiosos islâmicos, como Arábia Saudita, Iraque e Irã, sufocam a liberdade de suas populações. Onde as drogas alucinógenas ou psicodélicas se encaixam nesse turbilhão global? Se o movimento psicodélico foi capaz de mudar de rumo para abrir centros de tratamento financiados pelo Estado – voltados para funcionários públicos, trabalhadores de baixa renda e estudantes universitários –, poderemos então iniciar um ciclo de cura que alimenta a solidariedade em prol de uma ampla coalizão. Tal movimento deve ser orientado pela pedagogia revolucionária do livro Black Psychedelic Revolution, que inclui conceitos de Hegel e Marx, a teoria da identidade racial e a poesia radical. O conceito central é o do “retorno ao corpo”.
Mediação: Guilherme Giufrida, curador assistente, MASP
ABDESLAM ZIOU ZIOU
Abdeslam Ziou Ziou é pesquisador independente e curador, cujo trabalho explora dinâmicas coletivas na história da arte e na psiquiatria no Marrocos pós-colonial. Sua pesquisa concentra-se na formação e na dissolução de práticas coletivas, nas circulações informais de conhecimento e na relação entre arquivos, narrativas e práticas curatoriais. Ele trabalha com temas como psicoterapia institucional, movimentos antipsiquiátricos no Magrebe e formas alternativas de cuidado e transmissão. Participou de exposições como Untie to Tie – Movement.Bewegung, na ifa-Galerie Berlin, e Toucher l’insensé, no Palais de Tokyo; e de projetos como School of Casablanca. Recebeu bolsas de instituições como CAORC/Mellon, Unesco e Akademie Schloss Solitude.