MASP

Pensamento negro e cultura: intelectualidade, política e tradição no século 20

Horário
19H – 21H
Duração do Módulo
ONLINE
15 – 26.7.2024
SEGUNDAS, TERÇAS E SEXTAS
(6 AULAS)
Investimento

PÚBLICO GERAL
5X R$ 57,60
AMIGO MASP
5X R$ 48,96
*VALORES PARCELADOS NO CARTÃO DE CRÉDITO

Professores
Alexandre Almeida Marcussi

A ideia de “tradição africana” é uma das categorias mais complexas e controversas do pensamento político africano e antirracista do século 20. Diante da uma cultura europeia e ocidental racista, que insistiu em desqualificar culturas e sociedades africanas e afrodiaspóricas, intelectuais e artistas negros tentaram frequentemente promover uma revalorização de uma “tradição africana” supostamente subjacente a todas as culturas negras contemporâneas. Essa ideia logo se defrontou com impasses difíceis de solucionar, seja por conta da heterogeneidade das culturas africanas e afrodiaspóricas (que dificultava qualquer tentativa de definição de uma tradição única), seja pelo fato de que a definição da “tradição africana” derivou, frequentemente, dos próprios estereótipos criados pelo pensamento racista europeu que se buscava combater. Este curso pretende analisar as formas como diferentes intelectuais negros/as envolvidos/as nas lutas anticoloniais na África e no Caribe e nas mobilizações antirracistas nas Américas engajaram-se na ideia de tradição, seja para revalorizá-la, seja para questioná-la criticamente. Num momento em que a “tradição” se torna objeto de nostalgia e mercadoria valorizada nos circuitos culturais e políticos do século 21, este curso pretende fazer um inventário dos engajamentos críticos com esse conceito pelo pensamento e pela arte negra.


IMPORTANTE
As aulas serão ministradas online por meio de uma plataforma de ensino ao vivo. O link será compartilhado com os participantes após a inscrição. O curso é gravado e ficará disponível aos alunos durante cinco dias. Os certificados serão emitidos para aqueles que completarem 75% de presença.

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O MASP, por meio do apoio da VR, oferece bolsas de estudo para professores da rede pública em qualquer nível de ensino.

 

Planos de aulas

Aula 1 - 15.7.2024
A ferida da escravidão: passado e memória no pós-abolição

A primeira aula buscará analisar a maneira como intelectuais africanos e afrodiaspóricos debateram o problema da tradição africana no contexto imediatamente posterior à abolição do trabalho escravo, analisando comparativamente os contextos dos EUA, do Brasil, da Libéria e de Angola. Num momento em que as teorias racialistas e evolucionistas predominavam no contexto intelectual internacional e pautavam inclusive os projetos políticos abolicionistas, confundindo emancipação negra e colonização, intelectuais negros debateram a pertinência de se invocar as tradições culturais africanas e a memória da escravidão na construção de uma comunidade negra livre do passado escravista.

Aula 2 - 16.7.2024
A invenção da tradição na África colonial e no Brasil

Esta aula pretende investigar como uma certa ideia estática e estereotipada de “tradição” foi criada e fomentada pela administração colonial e pelas práticas museológicas das potências europeias na África, “inventando” tradições culturais adequadas para populações africanas submetidas a regimes de dominação colonial e trabalho compulsório. Pretende-se evidenciar como os estereótipos sobre a “tradição africana” mobilizados pelo discurso colonial resgatavam premissas básicas do pensamento racialista e evolucionista do século 19, trocando a “raça” pela “cultura” como critério de diferenciação e hierarquização social. 

Aula 3 - 19.7.2024
A Négritude, o pan-africanismo e a revalorização da tradição negra

O terceiro encontro analisará a maneira como intelectuais e artistas africanos e afrodiaspóricos mobilizaram a categoria de “tradição africana” como instrumento de luta, convertendo-a de categoria do pensamento racista em bandeira de mobilização antirracista. Pretende-se apresentar o movimento da Négritude na França das décadas de 1940 e 1950, evidenciando o papel da arte nesse contexto, com destaque para as ideias do senegalês Léopold Sédar Senghor e do martinicano Aimé Césaire, bem como discutir os projetos de codificação de uma “unidade cultural da África negra” em torno do legado da civilização egípcia no pensamento pan-africanista do senegalês Cheikh Anta Diop. 

Aula 4 - 22.7.2024
A tradição na encruzilhada dos marxismos negros

Esta aula pretende apresentar as críticas e contrapontos a ideias estereotipadas de “tradição africana” realizadas por intelectuais africanos no contexto das lutas anticoloniais na África e de projetos políticos de criação de Estados independentes modernos no continente africano. A tradição marxista negra será tomada como ponto de convergência dessas reflexões críticas sobre a tradição, seja por meio das dificuldades de definição de um “socialismo africano” na obra de Kwame Nkrumah, seja pelo viés antitradicionalista dos projetos políticos de C.L.R. James e Frantz Fanon.

Aula 5 - 23.7.2024
A tradição africana no Brasil: da “democracia racial” ao “quilombismo”

A última aula expositiva do curso volta-se para a investigação do contexto intelectual e artístico brasileiro do século 20, mostrando como a noção de tradição africana foi mobilizada por discursos oficiais no nacionalismo estatal e por intelectuais brancos e negros. Pretende-se investigar os novos sentidos assumidos pela ideia no Brasil diante de um contexto intelectual e ideológico marcado pelo mito da “democracia racial”, evidenciando a tradição como uma categoria em disputa por tendências ideológicas conservadoras e antirracistas. A construção de uma tradição “nagocêntrica” no Brasil será tensionada a partir da avaliação do papel da ideia de tradição no projeto político antirracista de Abdias Nascimento.

Aula 6 - 26.7.2024
Tradições da “tradição”: uma visita ao acervo do MASP

A última aula, opcional, consistirá em uma visita presencial guiada pelo docente à exposição de longa duração do MASP, mostrando as formas como artistas nacionais buscaram se engajar nessas diferentes formulações históricas da ideia de “tradição africana”. Num contexto ideológico em que a tradição cultural ganha ares de mercadoria de valor estratégico num mercado de bens culturais pautado na noção de “representatividade”, cabe questionar, a partir da arte, os diferentes caminhos e impasses da ideia de tradição e suas relações com o passado e o futuro.

Coordenação

Alexandre Marcussi é professor de História da África no Departamento de História e no Programa de Pós-Graduação em História Social da Universidade de São Paulo (USP). Entre 2016 e 2023, foi professor de História da África na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Tem Mestrado (2010) e Doutorado (2015) em História Social pela USP e realizou estágio pós-doutoral na Unicamp (2023). Atua como coordenador do Grupo de Pesquisa CNPq Itinerâncias: a circulação de atores e saberes e os poderes e resistências em África (USP/UFMG). Seus temas de pesquisa incluem a atuação de intelectuais africanos e afrodiaspóricos do século 18 ao século 20, religiões africanas e afro-brasileiras e história cultural da escravidão, com ênfase para as culturas centro-africanas.
 

Conferencistas