MASP

Histórias da dança

14.2.2020
SEXTA
10H-17H30

Este é o terceiro de uma série de seminários que antecipa o eixo curatorial Histórias da dança, que pautará um programa completo de exposições individuais e coletivas, palestras, oficinas, publicações e cursos no MASP em 2020.

O primeiro seminário ocorreu em dezembro de 2018 com a participação de Carmen Luz, Claudia Müller, Ismael Ivo, Julia Bryan-Wilson, Mathieu Copeland e Thomas J. Lax. O segundo seminário, em agosto de 2019, contou com Will Rawls, Christine Greiner, Manuel Segade, Béatrice Josse, Giselle Guilhon e Kélina Gotman.

A partir de diferentes estudos de caso, este terceiro seminário visa estimular uma discussão sobre políticas de corpos em movimento. Com a participação de pesquisadores, coreógrafos, bailarinos e curadores, as contribuições colocam em perspectiva que corpos dançam e o que os move.

INSCRIÇÕES GRATUITAS NO DIA
A distribuição de ingressos será realizada duas horas antes do início seminário, na bilheteria do museu. Para receber o certificado, é necessário o cadastro do e-mail e do nome completo, além da apresentação de um documento oficial no dia do evento. O certificado será enviado depois por correio eletrônico.

Organização: Adriano Pedrosa, André Mesquita, Julia Bryan-Wilson e Olivia Ardui.

PROGRAMA

10h – 10h30
INTRODUÇÃO

 
10h30 – 12h30
MARTA SAVIGLIANO
Tangos insolentes: coreocrítica e humor dançante

Nesta apresentação, acompanharei Blanchot (1943) em suas explorações sobre a insolência, Foucault (1963) em suas reflexões sobre a transgressão, além de diversos outros autores e autoras, como uma milonguita infiel, em busca dos limites transculturais do tango coreográfico. Recorrerei a uma análise do pós-exotismo no contexto da globalização para enquadrar as tentativas de reapropriação do tango por parte de artistas do sul global que, com suas criações tangueras insolentes (e conscientemente autoexóticas), reivindicam um lugar na produção da cultura global e seus benefícios. Apresentarei coreografias que fazem uso da ironia corporal para gerar reflexão crítica sobre os clichês estético-afetivos que tornaram o tango mundialmente reconhecível e irresistível: masculinidade e feminilidade como polaridades essenciais do amor impossível, heterossexualidade compulsiva, machismo e paixão.
 
SANDRA BENITES
O corpo que dança

Esta apresentação versará sobre a djeroky (dança) de ywyra’idja (dos guerreiros) e a dança de tangara (das mulheres). Na perspectiva dos Guarani Nhandawa ou Mbya, danças são mongu’e (movimentos), praticados também para aprender a ter um corpo rari (que se esquiva), para pisar leve e se encorajar em qualquer situação. Abordarei também os propósitos e diferenças entre as danças dos homens e das mulheres. Para os guarani, as danças estão associadas com a questão do sagrado. São atividades políticas, bem como estéticas. 

JULIA RAMIREZ BLANCO
Dança como protesto, protesto como dança: A experiência do Reclaim the Streets!

Protestos de rua podem ser entendidos como uma forma de dança na esfera pública. Corpos se movem dentro de determinados códigos, alternando sincronia e inovação, de modo a comunicar certas mensagens através das formas de sua presença física. Durante os anos 1990, um grupo ativista inglês chamado Reclaim the Streets! [Reivindique as ruas!] entendeu isso. A partir de 1995, começaram a explorar o formato da festa de rua como forma de protesto. Nessas celebrações, as situações de confronto eram combinadas com a criação de momentos nos quais a comunidade e o prazer eram posicionados na dianteira. Como parte da cultura rave, o tipo de dança gerado pelo grupo era marcado pelas batidas eletrônicas. Usando a metáfora do carnaval, eles acreditavam que a festividade pode ser transformada em insurreição, e que a insurreição é uma celebração que foi levada aos limites de suas possibilidades.

14h – 16h
NAYSE LÓPEZ 
Do buraco vemos o horizonte

Como pensar uma plataforma de ação para a dança brasileira hoje? Que estratégias de contato e criação podem nos tirar do estado de choque e fazer nascer outras formas de colaborar, estar e imaginar? É possível fazer festa, palavra-ação que está na raiz de todo festival, quando estamos diante de um buraco? A recriação do horizonte será dançada, coletiva, diversa e nova, ou não será.

LUCAS PEDRETTI
Dançando na mira da ditadura

Nos anos 1970, um fenômeno de enormes dimensões tomou conta do Rio de Janeiro: eram os bailes black, que mobilizavam milhares de jovens negros dos subúrbios e das favelas a cada final de semana. Por meio da música e da dança, eles celebravam sua identidade negra e colocavam em xeque diversos valores e regras sociais vigentes. Era um momento de repressão e censura, e a ditadura impunha o mito da democracia racial como pilar ideológico. Naquele contexto, fazer um penteado Black Power e se deslocar entre os bairros da cidade, mesmo que apenas para se divertir, eram gestos ousados. Não à toa o regime logo passou a enxergar os bailes como uma ameaça. Refletir sobre as dimensões sociais e políticas daqueles bailes é a proposta desta apresentação.

NAOMI MACALALAD BRAGIN
O agrupamento íntimo

A dança de rua é uma rede global de práticas de movimento que ligam expressões negras locais para ativar uma filosofia popular do hip-hop baseada no local de performance. Contudo, em configurações institucionais orientadas ao treinamento de profissionais da dança, o valor social do hip-hop corre o risco de ser determinado excessivamente por estruturas que afirmam formas europeias não clássicas ao posicioná-las em uma hierarquia que torna a entrincheirar o balé como padrão de pureza estética. Consequentemente, a dança estudada como lazer é projetada como aleatória – uma atividade improdutiva e indisciplinada, à qual falta uma técnica real. Eu trato a dança de rua como um ato de agrupamento íntimo que ativa o potencial comunicável e migratório do gesto. Os atos de agrupamento íntimo de dançarinos de rua recitam e tornam a situar histórias desconsideradas da dança, ao passo que desenvolvem novas redes translocais por meio de seus processos comunicativos e práticas insurgentes de espaço, inclinadas a transformar estruturas opressivas de representação.

16h30 – 17h30
ANALIVIA CORDEIRO
A dança no século XXI

O movimento corporal foi a primeira forma de relação social humana. Atualmente é a forma menos explorada nos meios de comunicação. Por incrível que pareça, nunca foi inventada uma escrita do movimento de fácil uso que possa ser amplamente utilizada por qualquer pessoa: um desafio atual para o conhecimento humano. Assim como escrevemos palavras ou sons, deveríamos escrever movimentos. Esta apresentação discutirá uma das primeiras tentativas mundiais em sistematizar a dança para ser programada por computador, referindo-se a quatro trabalhos de computer-video-dance: M3x3 (1973), o primeiro trabalho brasileiro de videoarte e precursor mundial da computer-dance; 0=45 (1974), experimento pioneiro do videoclipe; Gestos (1975) e Cambiantes (1976). Também abordaremos a notação Nota-Anna: uma forma de comunicação social do movimento humano aberta à criação e expressão do movimento para qualquer pessoa, em qualquer lugar. Falar com o corpo e se comunicar à distância pode ser a forma futura de enviar mensagens e novos conteúdos.

PARTICIPANTES

ANALIVIA CORDEIRO
Pioneira da videoarte brasileira e uma das precursoras da computer-dance no mundo. Trabalha na área da expressão do movimento do corpo sob múltiplos pontos de vista, desde a total espontaneidade até o planejamento tecnológico de alta complexidade, sempre dentro do caráter complexo de nossa sociedade atual. É membro do Conselho Internacional de Dança da UNESCO.

JULIA RAMÍREZ-BLANCO
Conferencista na Universitad de Barcelona. Especializada nas relações entre arte, utopia e política, é autora de Artistic Utopias of Revolt (Palgrave, 2018) e editora da edição monográfica do REGAC Journal “Non-Textual Utopias” (2018), além de ter publicado diversos outros artigos e capítulos de livros. Vem atuando como pesquisadora visitante nas universidades de Princeton, Nova York, Picardie e na École d’architecture de Nantes. Bolsista da Academia Espanhola em Roma (2015-16), ela atuou ainda como co-curadora do projeto The Grand Domestic Revolution (2019).

LUCAS PEDRETTI
Historiador, mestre em História Social da Cultura pela PUC-Rio e doutorando em sociologia no IESP-UERJ. Foi pesquisador da Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro. Autor do livro Dançando sob a mira da ditadura: bailes soul e a violência contra a população negra nos anos 1970 (no prelo pelo Arquivo Nacional).

MARTA SAVIGLIANO
Antropóloga e politóloga feminista, interessada nos aspectos políticos da cultura, em corporalidades e suas representações em baile, dança, movimento e performance no contexto da globalização neoliberal. Professora emérita de estudos críticos da dança na University of California, Riverside, e de artes e culturas do mundo na University of California, Los Angeles. Foi presidenta do Congress of Research in Dance (2010-2014), atual Dance Studies Association. Autora do livro Tango and the Political Economy of Passion (Westview Press, 1995), traduzido em diversas línguas. 

NAOMI MACALALAD BRAGIN
Dançarinx e professorx assistente na University of Washington Bothell. Seu projeto de livro Black Power of Hip-Hop Dance é um estudo histórico-etnográfico da estética política da dança de rua surgida na Califórnia nos anos 1960-1970. Fez turnês pelos Estados Unidos como diretorx artísticx da DREAM Dance Company, baseada em Oakland, foi artista do festival Future Aesthetics do NYC Hip-Hop Theater e finalista do Isadora Duncan Best Choreography Award, recebendo grande apoio do Creative Work Fund, entre outros. Seus textos receberam prêmios do Congress on Research in Dance, da American Society for Theatre Research, e do National Endowment for Humanities. 

NAYSE LÓPEZ 
Curadora e diretora artística do Festival Panorama. Criou e dirigiu a plataforma online idanca.net. Foi crítica de dança no Jornal do Brasil e escreve regularmente para diversas publicações no Brasil e no exterior.

SANDRA BENITES
Guarani Nhandewa e doutoranda em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Desde 2004, trabalha com educação indígena. Entre 2012 e 2014, foi coordenadora pedagógica de educação indígena na Secretaria de Educação do Município de Maricá, Rio de Janeiro. Realizou a curadoria da exposição DjaGuata Porã: Rio de Janeiro Indígena, no Museu de Arte do Rio (2017). É curadora adjunta de arte brasileira no MASP.