MASP

Histórias da dança

23.8
sex
10h-16h

Este é o segundo de uma série de seminários que antecipam o eixo curatorial Histórias da dança, que pautará um programa completo de exposições individuais e coletivas, palestras, oficinas, publicações e cursos no MASP em 2020. O programa também levantará relações, cruzamentos e diálogos entre artes visuais e dança.
 
O primeiro seminário ocorreu em dezembro de 2018 e contou com Carmen Luz, Claudia Müller, Ismael Ivo, Julia Bryan-Wilson, Mathieu Copeland e Thomas J. Lax.
 
Com a participação de pesquisadores, críticos e historiadores da arte, coreógrafos, bailarinos e curadores, este segundo seminário visa estimular a reflexão e a discussão sobre os corpos dançantes: que corpos são esses e o que os move? De que maneira a dança compõe, consolida, reencena e perpetua normas ou até reivindicações, identidades e um senso de coletividade?
 
O seminário também reitera um questionamento sobre as políticas de representação da dança e a respeito de como presenças efêmeras em performances podem trazer novas perspectivas para os museus e as artes visuais, tradicionalmente articulados em torno da produção e da preservação de objetos materiais.
 
INSCRIÇÕES GRATUITAS NO DIA DO EVENTO
 
A retirada de ingressos será realizada uma hora antes do início do evento, na bilheteria do museu. Para receber o certificado de participação, é necessário cadastrar e-mail e nome completo e apresentar um documento oficial. Os certificados serão enviados para o e-mail cadastrado.
 
Organização: Adriano Pedrosa, André Mesquita, Julia Bryan-Wilson e Olivia Ardui. 

PROGRAMA

10h
Introdução com Adriano Pedrosa

10h30 – 12h30
WILL RAWLS

Disnegativo
Na dança contemporânea, o “dispositivo” muitas vezes refere-se à estrutura coreográfica que ajuda a dar coesão a uma performance. O “disnegativo”, então, talvez possa acolher as estratégias coreográficas que convidam as coisas a se desmantelar, ou a se manter juntas em desagregação. Quando assistimos a uma performance, como o desejo de “entender” compete por uma base cognitiva com o de “testemunhar”? Como esses desejos operam quando direcionados para performances que trazem sujeitos racializados, cujos encontros com regimes de interpretação são historicamente comprometidos pela negação? Usando da própria coreografia como diretriz, o coreógrafo vai observar interações entre linguagem, voz, movimento e material para esboçar uma abordagem disnegativa que permita ler coreografias em contextos teatrais e de artes visuais. Will Rawls ai compartilhar ferramentas teóricas e discutir como coincidem com práticas de mover-se pelo mundo, além de senti-lo e narrá-lo.

CHRISTINE GREINER
A vulnerabilidade como ativadora da criação

A palestra analisa experiências constituídas a partir de imagens e estados de extrema vulnerabilidade, quando se buscam modos singulares para lidar com situações de risco, desestabilizando identidades e modelos. O primeiro exemplo é o coreógrafo japonês Tatsumi Hijikata, que concebe a dança butô como reinvenção do corpo. Em História da varíola, ele se refere ao vento gelado de Tôhoku, a Vaslav Nijinski e aos trípticos do artista Francis Bacon para lidar com o esgotamento da vida. O segundo exemplo é a coreógrafa brasileira Lia Rodrigues. Em Para que o céu não caia, ela se inspira no livro A queda do céu, do xamã Davi Kopenawa, e propõe outra concepção de imagem voltada às mudanças radicais de estado corporal na perspectiva da favela da Maré, onde nasceu a coreografia. O terceiro exemplo é Latifa Laâbissi, coreógrafa franco-marroquina que em seu solo Self-Portrait Camouflage problematiza imagens de imigrantes que, sob o olhar colonial, são convertidas em corpos-objeto, corpos-moeda.

MANUEL SEGADE
Coreografias sociais e gestos radicais

Gestos são aprendidos, legitimados, codificados: pertencem a um gênero, a uma classe, a uma raça e também são naturalizados dentro de campos sociais definidos historicamente. Na contramão, gestos radicais desmantelam a linguagem de gestos convenientes: fazer uma pose não significa fazer um gesto, e sim tomar as codificações existentes como repertório à disposição de corpos que os encarnam a cada vez como um evento, desmantelando e reconstruindo as relações estabelecidas pela História. A pose é a carne da história que vai contra a lógica: gestos radicais são frases coreográficas de dissidência, são as micro-histórias que permitem que se faça com que a História dance. Se a anarquista Emma Goldman não podia participar em uma revolução em que não pudesse dançar, museus de arte contemporânea são esses lugares em que a dança da história cria novas coreografias sociais dos corpos negligenciados que ainda conseguem ameaçar os gestos hegemônicos: os espaços de uma contaminação afetiva encenada por corpos afetados e poses contaminantes.

14h – 16h
BÉATRICE JOSSE
Colecionar o invisível

Excluídas da história da arte acadêmica, a performance e outras obras de arte coletiva ou baseadas em protocolos não tiveram lugar nos acervos de museus, voltados aos aspectos materiais das obras. No mesmo momento em que nasce a noção de patrimônio imaterial da Unesco, em fins dos anos 1990, Béatrice Josse passa a integrar essas obras performativas, muitas vezes conjugadas no feminino, à coleção do Frac Lorraine em Metz, na França. Parece fundamental a ela que uma coleção pública homologue a prática por meio de aquisições de documentos (fotos, vídeos), mas também de formas ao vivo a serem reativadas, interpretadas. O olhar feminista permite se interessar por modos de invisibilidade no sentido mais amplo, mudando profundamente a leitura do mundo museal. Ele abala determinadas certezas, sobretudo aquela de que apenas a materialidade proporciona valor.

GISELLE GUILHON
Antropologia da dança no Brasil: genealogias, influências, contribuições 

A partir da pesquisa em andamento “Etnografando etnografias: mapeamento das pesquisas em antropologia da dança realizadas no Brasil entre 1990 e 2020”, a palestra atravessará três tópicos: 1) a dança na antropologia e a antropologia na dança: apresentação da produção antropológica em dança e suas contribuições; 2) construindo genealogias: esboço das principais filiações e correntes teórico-metodológicas que nortearam essas pesquisas (algumas, inclusive, com forte influência dos estudos da performance, da etnologia ritual e da etnomusicologia) e que deram origem a ramificações diversas; 3) a contribuição dos folcloristas: referência e reverência a ações pioneiras de registro, catalogação e análise que, mesmo não reconhecidas à época como pesquisa propriamente antropológica em dança, poderiam representar uma possível primeira geração de pesquisas, uma vez que prepararam o terreno onde as sementes da disciplina seriam plantadas.

KÉLINA GOTMAN 
Onde se encontra a história da dança?

Qual é o “objeto” da história da dança e como a “história da dança” surge enquanto domínio e discurso? Em outras palavras, como conceituar a ficção da disciplinaridade – sua fabricação – como um modo de extrair as possibilidades de reficcionalizar a “dança” em sentido expandido como movimento ou coreografia? Com base em seu trabalho acerca da “coreomania”, o discurso sobre “epidemias de dança” na medicina colonial, na história da medicina, na antropologia, na sociologia e na psiquiatria, além de muitos outros domínios ao longo do século 19, Kélina Gotman fará sugestões de modos possíveis de reconceitualização da “história da dança” numa arena radicalmente transdisciplinar. Em particular, serão sugeridos modos para conceitualizar os métodos de pesquisa em dança para serem coreografados – mover-se “anarqueologicamente” no tempo histórico conforme a “dança” passa a ser vista institucionalmente. A professora argumenta que pensar de modo coreográfico pode ajudar a reorientar o trabalho na direção de uma arena de investigação mais aberta e atenta a atos epistemológicos de deslocamento, tradução e transferência.

PARTICIPANTES

BÉATRICE JOSSE
Formada em Direito e História da Arte, Béatrice Josse assumiu a direção do 49 Nord 6 Est – Frac Lorraine, em 1993, e depois do Magasin, em Grenoble, em 2006. Nesse espaço destinado a colecionar obras de arte, ela conseguiu reduzir consideravelmente o número de artistas homens ao mesmo tempo que infiltrou ali práticas imateriais (performances, protocolos). Além de monografias históricas de artistas, ela organizou diversas exposições coletivas relacionadas a seus engajamentos feministas. Hoje na direção do Magasin des horizons em Grenoble, Josse se orienta por uma nova definição do papel de artista na sociedade, propondo projetos pluridisciplinares e uma formação profissional aberta a questões de arte, sociedade e clima.
 
CHRISTINE GREINER
Professora livre-docente da PUC-SP. Desde 1998, coordena o Centro de Estudos Orientais, ensina e orienta pesquisas no Programa de Estudos Pós-Graduados em Comunicação e Semiótica e no curso de Artes do Corpo. Foi professora e pesquisadora visitante em universidades no Japão (Kansai Gaidai, Nichibunken, Rikkyo etc.), nos Estados Unidos (NYU, Tisch School of Arts), na Espanha (Castilla de la Mancha) e na França (Paris VIII). É autora dos livros Fabulações do corpo japonês, Leituras do corpo no Japão, O corpo em crise, curto-circuito das representações e O corpo: pistas para estudos indisciplinares, entre outros.
 
GISELLE GUILHON
Professora e pesquisadora da UFPA, atua no Programa de Pós-Graduação em Artes (PPGArtes) e nos cursos de graduação em dança e música. Doutora em Artes Cênicas pelo PPGAC/UFBA, com estágio sanduíche na Université Paris VIII. Pós-doutora em Antropologia Social pela UFSC e em Ciência da Religião pela UFJF. Coordena o Grupo de Pesquisa Círculo Antropológico da Dança – Ciranda. Publicou os livros Sama: etnografia de uma dança sufi, Mukabele: ritual dervixe e Rumi e Shams: notas biográficas, e organizou os títulos Antropologia da Dança I, II, III e IV.
 
KÉLINA GOTMAN
Professora sênior de Estudos Teatrais e de Performance no King’s College em Londres, e professora convidada Hölderlin de Dramaturgia Comparada na Goethe-Universität em Frankfurt. É autora de Choreomania: Dance and Disorder (em tradução direta, Coreomania: dança e desordem) e Essays on Theatre and Change: Towards a Poetics Of (Ensaios sobre teatro e mudança: por uma poética, em tradução livre), e coeditora de Foucault’s Theatres (Teatros de Foucault, em tradução direta, atualmente no prelo). Além de vasta produção de textos sobre movimento, tradução, dança e história cultural e crítica de disciplinas e instituições, é colaboradora de produções artísticas na Europa e na América do Norte. Também atuou como consultora estratégica e curadora para galerias e festivais internacionais.

MANUEL SEGADE
Manuel Segade trabalha desde 1998 em fragmentos de história cultural de práticas estéticas do fim do século 19, acerca da produção de uma subjetividade somática e sexualizada, que resultou em seu livro Narciso Fin de Siglo (Narciso fim de século, em tradução livre), de 2008. Com vasta prática curatorial, foi responsável pelo Pavilhão da Espanha na Bienal de Veneza de 2017. Leciona Prática Curatorial em diversos programas de mestrado e pós-graduação, como a Michaelis University, na Cidade do Cabo, o Programa de Estudos Independentes do MACBA e a École du Magasin em Grenoble. É diretor do Centro de Arte Dos de Mayo em Móstoles, situado em Madri, Espanha.

WILL RAWLS
Coreógrafo, dançarino e escritor baseado em Nova York, cujo trabalho se concentra em linguagem e dança como ferramentas para engajar a incorporação e a abstração negra em performance. Seu trabalho já foi apresentado em espaços como MoMA e MoMA PS1, Museum of Contemporary Art (MCA) Chicago, Danspace Project, New Museum of Contemporary Art, Issue Project Room, Portland Institute for Contemporary Art e Walker Arts Center. Para o Danspace Project, foi corresponsável pela curadoria de Lost and Found, composto por performances e projetos de artistas centrados no impacto intergeracional do HIV/AIDS em dançarinos e dançarinas, mulheres e pessoas de cor. Tem textos publicados pela Artforum Internacional, pelo Hammer Museum e pelo MoMA. Recebeu, entre outros prêmios, a Bolsa Guggenheim, a Robert Rauschenberg Residency e a subvenção da Foundation for Contemporary Arts. Leciona e é palestrante em universidades, comunidades e festivais.