MASP

Histórias indígenas

9.11.2021
TERÇA
11h-16h30
ONLINE
Este é o quarto seminário de um projeto de longo prazo que antecipa o programa de exposições, palestras, oficinas, publicações e cursos no MASP dedicado às Histórias indígenas em 2023. O primeiro seminário ocorreu em junho de 2017 e contou com as participações de Ailton Krenak, Aristóteles Barcelos Neto, Claudia Andujar, Davi Kopenawa, Edson Kayapó, Els Lagrou, Joseca Yanomami, Luis Donisete Grupioni Benzi, Luisa Elvira Belaunde, Lux Vidal, Milton Guran, Pedro de Niemeyer Cesarino e Sandra Benites. O segundo, ocorrido em julho de 2019, contou com Brook Andrew, Daiara Tukano, Denilson Baniwa, Franchesca Cubillo, Heather Ahtone, Moara Brasil, Nigel Borell, Sandra Benites, Sarah Ligner, Scott Manning Stevens e Ticio Escobar. Em julho de 2020, o terceiro seminário teve como palestrantes Ariel Kuaray Ortega, Carlos Fausto, Rosaura Andazabal, Abraham Cruzvillegas, Sebastián Calfuqueo Aliste e Sandra Gamarra.

Esses seminários reintroduzem as culturas indígenas no museu. Ao longo de sua história, o MASP organizou diversas exposições com objetos e registros de comunidades indígenas localizadas no território brasileiro: Exposição de arte indígena (1949), Alguns índios (1983), Arte karajá (1984), Índios yanomami (1985) e Arte indígena kaxinawa (1987).

Com teóricos e praticantes de diferentes locais, cenários e perspectivas, o seminário tem como objetivo apresentar e discutir a riqueza e a complexidade de materiais indígenas e culturas imateriais, suas filosofias, cosmologias e lutas, e os desafios e as possibilidades de trabalhar com esses campos, sobretudo no contexto de um museu.

ORGANIZAÇÃO
Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP
André Mesquita, curador, MASP
David Ribeiro, assistente curatorial, MASP
Guilherme Giufrida, curador assistente, MASP
Lilia Schwarcz, curadora adjunta de histórias, MASP
Sandra Benites, curadora adjunta de arte brasileira, MASP
 
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TRANSMISSÃO AO VIVO
O seminário terá transmissão online e gratuita pelo perfil do MASP no YouTube, com tradução em Libras.

CERTIFICADO
Para receber o certificado de participação, é necessário realizar um cadastro por meio de um link que será fornecido durante o seminário.

PROGRAMA

11H-11H10
Introdução
Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP


11H10-13H
DIRCE JORGE KAINGANG
Cultura, espiritualidade e resistência

Nesta apresentação, Dirce Jorge Kaingang falará sobre aspectos da cultura e da espiritualidade kaingang que sustentam os seus modos de ser e de pensar, bem como as suas formas de resistência. Além disso, abordará de que forma a questão do sagrado deve ser considerada por museus indígenas e não indígenas em relação a essas culturas.

GREG HILL
Contemplando o panorama criativo indígena global: lembrando do amanhã

Baseando-se em alguns exemplos de obras das duas primeiras exposições globais recorrentes de arte indígena internacional contemporânea da National Gallery of Canada, Sakahàn (2013) e Àbadakone / Continuous Fire / Feu Continuel (2019-20), a apresentação tratará de temas presentes nessas obras e de estratégias curatoriais que amplificam estas ideias.

SUZENALSON KANINDÉ
Museus indígenas, museologias nativas e redes de memória

Nos últimos anos, os povos indígenas têm atuado na apropriação de um processo museológico, protagonizando a construção de museus indígenas, espaços de memória e centros de documentação em seus territórios, onde esses espaços têm assumido importante papel nas lutas e resistências dos povos/etnias ao se constituírem em potentes espaços de reivindicação de uma educação diferenciada, de valorização dos processos tradicionais de transmissão de conhecimento, de afirmação étnica, de construção de autorrepresentação e contranarrativas, de produção, difusão cultural e de luta pela demarcação dos territórios, produzindo processos de autonomia. Atualmente o envolvimento dos povos indígenas nesse projeto de construção de espaços específicos que represente a sua cultura tem sido em torno de uma consciência sobre a importância de se preservarem seus ritos, saberes, fazeres e ecossistemas presentes em seus territórios. Esta apresentação tem o objetivo de mostrar como os povos indígenas no Brasil têm se apropriado da ferramenta museu para fortalecer suas lutas em torno de seus territórios e construído relações diante da criação de redes de memória.

NUNO PORTO
Museus, comunidades indígenas, verdade e reconciliação

O MOA (Museum of Anthropology at UBC) está situado em território ancestral, tradicional e não cedido do grupo Musqueam, no que é hoje a cidade ainda chamada de Vancouver. Esta localização em terra indígena é também uma posição praxiológica que situa e proporciona uma perspectiva sobre o contexto mais vasto do Estado Canadense e do mundo, por relação com os povos indígenas. Num momento em que o Canadá se redescobre como nação fundada sobre o genocídio de suas primeiras nações e questiona a ilusão multicultural; num momento em que o MOA se repensa como pioneiro de práticas de verdade e reconciliação museológica; num momento em que a articulação política internacional é urgente para minorar genocídios em curso – como o que está ocorrendo no Brasil –, esta apresentação pretende explorar modos de ativação do museu em favor da justiça social.

Mediação
David Ribeiro
Assistente curatorial de mediação e programas públicos, MASP


14H30-16H30
LIÇA PATAXOOP
O aprendizado pataxoop: natureza, oralidade e a escrita por imagens

Como liderança das mulheres e professora de Uso do Território em sua aldeia, Dona Liça falará sobre seu estudo e aprendizado com a terra, sobre os seus valores de vida, costumes e conhecimentos tradicionais, passados para alunos e demais membros da comunidade. Além disso, abordará como o seu ensino se dá por meio da oralidade e da escrita, que é construída com imagens chamadas de Tehêy. Tehêy é tanto o nome de um instrumento utilizado por mulheres na pescaria quanto o nome de imagens que fundamentam a transmissão de valores para as crianças e os jovens.

MEGAN TAMATI-QUENNELL
Um assento à mesa

Esta apresentação analisa as mulheres do modernismo maori, que foram algumas das primeiras mulheres artistas maori a trabalhar em um contexto artístico e no campo da arte moderna na Nova Zelândia, dos anos 1930 a meados dos anos 1970. Trata-se do resultado de uma pesquisa iniciada há alguns anos e que agora está em desenvolvimento enquanto Megan Tamati-Quennell estuda para a primeira exposição sobre as mulheres do modernismo maori, com curadoria própria, e que será aberta no Te Papa em setembro de 2022. Como a exposição, que pergunta o que era ser uma artista maori naquela época na Nova Zelândia, esta palestra aborda o silenciamento da indigeneidade e das mulheres nas narrativas estabelecidas do modernismo. Ela aborda uma série de mulheres artistas maori ativas de 1930 a meados da década de 1970, mas se concentra particularmente em três mulheres artistas que também eram especialistas em arte maori: Katarina Mataira (Ngati Porou), Cath Brown (Ngai Tahu) e Marilynn Webb (Ngati Kahu, Te Roroa).

LUIZ ELOY TERENA
Povos indígenas, judicialização e políticas públicas: contextualizando a ADPF 709 no STF e no enfrentamento da pandemia

A pandemia da Covid-19 escancarou problemas estruturais relacionados aos povos e às comunidades indígenas no Brasil. Demandas sociais ligadas a proteção territorial, atendimento à saúde indígena em diversos contextos territoriais e formulação de políticas públicas indenitárias acabaram desaguando no judiciário. Se, por um lado, exigiu-se dos povos indígenas a capacidade política de demandar juntos as instâncias nacionais e internacionais, a análise situacional aponta, de igual modo, para rotinas e práticas administrativas incapazes de lidar com a diversidade indígena, bem como uma indisposição estatal em acatar os preceitos constitucionais de proteção dos povos indígenas. A partir da observação participante, atrelada à análise documental, a mesa proposta analisará o contexto pandêmico e as incidências indígenas no Brasil, especialmente a partir da ADPF 709 no STF.

PABLO JOSÉ RAMÍREZ
Ancestralidade e o dilema do contemporâneo

Quais são as implicações de pensar a ancestralidade como uma força ontológica? A apresentação fará uma introdução às práticas artísticas indígenas articuladas a partir de lugares de oclusão, observando articulações estéticas que rompem a capitalização da diferença e a abdução semântica de culturas não ocidentais. Além disso, busca pensar a natureza paradoxal da relação entre arte contemporânea e indigeneidade como um emaranhado criativo que remodela os repertórios da história da arte e do acervo de museus.

Mediação
Guilherme Giufrida
Curador assistente, MASP

 

PALESTRANTES

DIRCE JORGE KAINGANG
Dirce Jorge, de nome indígena Ynãn, é Kaingang da Terra Indígena Vanuíre, localizada no município paulista de Arco-Íris. É kuiã (liderança espiritual) e também gestora e curadora do Museu Worikg, localizado em sua aldeia. 

GREG HILL
Presidente inaugural Audain da National Gallery of Canada e curador sênior de arte indígena. Integrante Kanyen’kehaka (moicano) das Seis Nações do Território do Rio Grande e artista. Com os cocuradores Christine Lalonde e Candice Hopkins, Hill iniciou uma série contínua de exposições de arte indígena contemporânea internacional, começando com Sakahàn, em 2013, seguida por Àbadakone/Continuous Fire/Feu Continuel (2019-20), e Àbadakone planejada para 2025. Hill curou várias exposições importantes, incluindo a primeira exposição individual da National Gallery of Canada para um artista dos povos originários, Norval Morrisseau: Shaman Artist (2006), retrospectivas para Carl Beam: The Poetics of Being (2010), Alex Janvier (2016) e Shelley Niro: 500+ Year Itch (2025).

LIÇA PATAXOOP
Liça Pataxoop mora na aldeia indígena Muã Mimatxi, município de Itapecerica (MG) e pertence ao povo Pataxoop. É casada, tem 6 filhos e 8 netos. É filha da Terra, irmã da natureza, teve seus aprendizados vindos dessa irmandade com a natureza. Tem um livro publicado e outro a ser publicado, participa de reuniões de educação e de saúde. É a pessoa que está na linha de frente na luta pela aldeia e gosta de mexer com a terra. Seu ensino é pelos valores de vida, seus professores de vida foram as matas, os rios, as lagoas, os mangues, o mar e hoje ensina por meio desse conhecimento tradicional.

LUIZ ELOY TERENA
Advogado indígena Terena. Foi coordenador do Departamento Jurídico da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB). Doutor em antropologia social pelo Museu Nacional (UFRJ). Pós-doutor em antropologia pela École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), Paris.

MEGAN TAMATI-QUENNELL
Curadora e escritora de arte moderna e contemporânea maori e indígena, um campo sobre o qual ela vem trabalhando por mais de três décadas. Atualmente ocupa dois cargos curatoriais: curadora de arte moderna e contemporânea māori e indígena no Te Papa e curadora indígena associada de arte contemporânea Kairauhī Taketake Toi Onāianei na Govett Brewster Art Gallery, em New Plymouth. Tamati-Quennell é descendente Te Āti Awa, Ngāti Mutunga e Ngāi Tahu, Kāti Māmoe e Waitaha Māori. Seus interesses de pesquisa incluem modernismo maori, arte maori contemporânea, minimalismo e arte conceitual maori, mulheres artistas maori desde 1930 até hoje, arte dos povos originários internacionais, a influência da arte dos povos originários na arte moderna e contemporânea e a práxis curatorial de arte dos povos originários.

NUNO PORTO
Antropólogo, com pesquisas desenvolvidas em Portugal, Cabo Verde, Angola e Brasil. Entre 2006 e 2012 fez parte da Comissão para a Reabertura do Museu do Dundo, liderada pelo Ministério da Cultura de Angola e liderou a equipe que desenvolveu e implantou o site www.diamangdigital.net. Entre 1991 e 2011 foi professor na Universidade de Coimbra, onde foi diretor do Museu de Antropologia entre 2002 a 2006, e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social e Cultural (2006-2011). No MOA desde 2012, realizou uma exposição recente nos direitos da natureza e explorou as transformações de conhecimento indígena em legislação nacional.

PABLO JOSÉ RAMÍREZ
Curador, escritor de arte e teórico cultural. É curador adjunto de povos originários e de arte indígena na Tate. Seu trabalho revisita as sociedades pós-coloniais para considerar ontologias não ocidentais, indigeneidade e formas de oclusão racial. Em 2014 foi cocurador com Cecilia Fajardo-Hill da 19ª Bienal do Paiz, Trans-visible. Ramírez é o editor-chefe e cofundador da Infrasonica, uma plataforma curatorial online dedicada à pesquisa em torno de culturas não ocidentais sônicas. Tem realizado palestras e publicado extensivamente. Foi ganhador do Prêmio do Independent Curators International/CPPC 2019 para a América Central e o Caribe. Ramírez faz parte da Equipe Curatorial da 58ª Carnegie International (2022).

SUZENALSON KANINDÉ
Vice-cacique, indígena do Povo Kanindé do estado do Ceará, mestrando em humanidades pela Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB-Redenção). Coordenador do Ponto de Memória: Museu Indígena Kanindé. Professor da Escola Indígena Manoel Francisco dos Santos. Membro articulador da Rede Indígena de Memória e Museologia Social no Brasil. Representante da Rede Indígena de Museus Indígenas no Comitê Gestor de Políticas Culturais Indígenas no Ceará – SECULT – Ceará, representante dos Povos Indígenas no Comitê de Gestão Compartilhada do Programa Pontos de Memória – Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM.