MASP

Denilson Baniwa

Natureza morta 1, 2016

  • Autor:
    Denilson Baniwa
  • Dados biográficos:
    Barcelos, Amazonas, Brasil, 1984
  • Título:
    Natureza morta 1
  • Data da obra:
    2016
  • Técnica:
    Fotografia digital, edição e impressão digital sobre papel
  • Dimensões:
    146 x 103 cm
  • Aquisição:
    Doação anônima, no contexto da exposição Histórias da dança, 2020
  • Designação:
    Fotografia
  • Número de inventário:
    MASP.11130
  • Créditos da fotografia:
    Denilson Baniwa

TEXTOS



Em intervenções urbanas, desenhos, colagens e performances, Denilson Baniwa, artista e ativista indígena do povo Baniwa, muitas vezes estabelece uma fricção entre representações, ícones e imaginários indígenas e não-indígenas. Com referências explícitas a gêneros e iconografias da história da arte ocidental, Baniwa coloca em xeque a exotização, os estereótipos, as expectativas e, em última instância, um desconhecimento da história e cultura dos povos indígenas. Neste sentido, ele revela como os aparatos e instituições que consolidaram, legitimaram e difundiram essa narrativa visual eurocêntrica também estão alinhados com uma política ofensiva, racista e colonial, além de um violento apagamento epistemológico em curso até os dias atuais. É o caso de Natureza morta 1, montagem fotográfica na qual o artista delineou a silhueta de um pajé com uma pose que sugere uma dança cerimonial a partir da colagem de imagens de satélite de áreas desmatadas da floresta Amazônica. O título da obra remete ao gênero de pintura holandesa do século 17 que se destacou pela representação virtuosa de mesas exuberantes e cheias de fartura (a natureza) prestes a receber seus comensais, mas cujo caráter perecível dos alimentos e outros objetos ali dispostos também simbolizava a finitude da vida (a morte) e a futilidade desses prazeres humanos. Diante da silhueta-fantasma do pajé na floresta, a natureza-morta de Baniwa ganha literalmente contornos de denúncia contra desmatamento e o genocídio dos povos indígenas promovido pela exploração desenfreada da Amazônia.

— Olivia Ardui, curadora assistente, MASP, 2020





Por Equipe curatorial MASP
A pintura Moema, de Victor Meirelles, apresenta a personagem do poema épico Caramuru (1781), de frei Durão (1722‑1784). O texto narra o trágico destino da indígena, morta na praia depois de se afogar enquanto seguia, a nado, o navio de Diogo Álvares, sua paixão, que retornava a Portugal. A história de Moema teve muitas representações na arte, na literatura e na música da época. O assunto é próprio do chamado romantismo indianista, que buscava valorizar os temas nativos na história nacional a partir de uma visão idealizada e que escondia as barbáries da colonização. Na pintura do MASP, Meirelles retomou o tema europeu do nu feminino na paisagem em sua dimensão clássica, representando Moema como uma espécie de Vênus indígena. Tal representação, entretanto, condiz com o olhar dispensado ao corpo indígena naquele contexto, isto é, tido como passivo e entregue ao homem branco — visão que se confirma quando conhecemos a história de Moema. Atualmente, a pintura encontra-se exposta no Acervo em Transformação do museu ao lado de Natureza morta 1, do multiartista contemporâneo Denilson Baniwa. Em seu trabalho, este artista põe justamente em destaque corpo e território, dois alvos do colonialismo europeu. Desse modo, o diálogo entre as obras de Meirelles e Baniwa evidencia-se uma vez que ambos os corpos indígenas ao chão evocam o genocídio dessas populações, que atravessa os séculos: enquanto Moema aponta para o conflito entre a imagem do indígena como herói da nação, construída durante o Império, e a violência praticada contra as populações nativas e suas culturas, Natureza morta 1 mostra como um mesmo sistema de dominação continua, por mãos brasileiras, aquilo que os primeiros portugueses aqui aportados fizeram com a maior parte dos povos originários.

— Equipe curatorial MASP, 2021





Por David Ribeiro




Pesquise
no Acervo

Filtre sua busca