MASP

Histórias das Mulheres, histórias Feministas

5.4
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10h-18h

Este seminário dá continuidade às discussões de outros dois promovidos pelo MASP no ano passado, nos meses de fevereiro e novembro. São todos parte da pesquisa realizada para o ciclo de exposições e programas públicos Histórias das mulheres, histórias feministas, eixo temático do museu em 2019, que inclui uma grande mostra coletiva prevista entre agosto e novembro. A exposição será dividida em duas partes: Histórias das mulheres, com obras de vários territórios, estilos e gêneros pictóricos realizadas até o final do século 19, mas relegadas pela história oficial da arte, e Histórias feministas, com artistas de diferentes nacionalidades que trabalham em torno de ideias feministas ou em resposta a elas no século 21.
 
O seminário será um fórum para que artistas, curadoras, ativistas e teóricas abordem os principais temas relacionados ao feminismo e à arte. Histórias das mulheres, histórias feministas deseja abordar não apenas tópicos que têm sido mais presentes nos debates internacionais, mas também criar novas reflexões para o projeto curatorial do MASP. A discussão abrange temas como direitos humanos, raça e gênero, dissidências sexuais e ativismos, todos relacionados à cultura visual e à prática artística.

INSCRIÇÕES GRATUITAS NO DIA DO EVENTO 
A retirada de ingressos será realizada uma hora antes do início do seminário, na bilheteria do museu. Para receber o certificado, é necessário o cadastro de e-mail, nome completo e a apresentação de um documento oficial no dia do evento. O certificado será enviado posteriormente para o e-mail cadastrado.

Organização: Adriano Pedrosa, Amanda Carneiro, André Mesquita, Isabella Rjeille e Mariana Leme
 

PROGRAMA

10h
Introdução com Adriano Pedrosa


10h30 – 12h30
GEORGINA G. GLUZMAN

Linhas convergentes: notas sobre artistas latino-americanas da virada do século
Desde a década de 1970, a crítica feminista à história da arte revelou um amplo espectro de obras, ações e artistas apagadas das narrativas canônicas. Na América Latina, a história de mulheres artistas permaneceu como terra incógnita por décadas, campo que só começou a ser explorado de maneira sistemática recentemente. A partir dessas investigações, é possível inferir algumas linhas comuns que permitem pensar a atividade de mulheres artistas e sua inserção nos relatos históricos. Assim, este trabalho propõe três linhas para pensar as carreiras e a fortuna crítica das artistas. Em primeiro lugar, analisarei a consolidação de um estereótipo limitante para mulheres artistas da região: o de que elas se restringiram meramente a meios e gêneros “menores”. Em segundo lugar, abordarei lendas que dominam nas cenas da virada do século, como Lola Mora (1866-1936) na Argentina e Rebeca Matte (1875-1929) no Chile. Por fim, avaliarei como o registro fragmentário de dados e o desaparecimento material das obras feitas por mãos femininas complicaram a reescrita crítica das histórias da arte na América Latina.

ANA PAULA CAVALCANTI SIMIONI
Modernas em museus: a difícil consagração

Em 1947 inaugurou-se o Musée National d’Art Moderne. Na ocasião, 623 artistas foram selecionados para representarem “a” história da arte moderna presente em Paris, considerada a capital artística da modernidade. Naquele templo de consagração, apenas 45 obras exibidas eram assinadas por artistas mulheres. Essa baixa representação assinala as dificuldades que as artistas mulheres enfrentaram para se fazer reconhecidas, mesmo em tempos modernistas. A apresentação se propõe a refletir sobre as articulações entre gênero e reconhecimento, analisando a presença feminina nos primeiros tempos dos museus de arte moderna.

KANITRA FLETCHER
Controle de danos: resistência visual de mulheres negras no Brasil e além

Jezebéis, amas negras e matriarcas… Esses rótulos significam construções sociais racializadas e genderizadas que permeiam as vidas de mulheres negras transnacionalmente. Esta apresentação analisa a obra de Rosana Paulino como uma forma visual de resistência a três das principais “imagens dominantes” de mulheres negras brasileiras como sexualmente promíscuas, trabalhadoras domésticas e mães inadequadas. A obra dela representa não apenas uma experiência brasileira, como também amplia e aprofunda discussões acerca da arte feita por mulheres negras da África e de suas diásporas, onde existem estereótipos semelhantes. Trabalhos de María Magdalena Campos-Pons, Lorna Simpson, Zanele Muholi e Wangechi Mutu, entre outras, serão colocados em diálogo com o trabalho de Paulino, ao mesmo tempo articulando-a a uma comunidade internacional de mulheres artistas negras e desenvolvendo um espaço maior para a representação de mulheres negras brasileiras na história da arte.
 
14h – 16h30
AMY TOBIN
Irmandade e rivalidade feminista no Movimento de Arte das Mulheres

O Movimento de Liberação das Mulheres dos anos 1970 defendia o poder político da irmandade, mas essas relações raramente se davam com facilidade. Grupos foram formados e rompidos, ativistas de liderança foram arrasadas e extraídas de organizações fundadas por elas, feministas lutaram por inclusão e igualdade. Nos debates relacionados do Movimento de Arte das Mulheres acerca da agência de artistas e da política de representação criaram um sentimento ruim entre artistas e críticas, e basicamente moldaram o fazer, a discussão e a exibição de arte. Esta fala mapeia algumas dessas trocas dentro do modelo lateral da relação de irmãs, articulando uma vanguarda feminista e um entendimento mais complexo da convocatória “Sisterhood is Powerful” [A irmandade é poderosa].

KAJ OSTEROTH
Além da admiração radical

Em 2018, Lydia Hamann e Kaj Osteroth lançaram Radical Admiration – A Feminist Picture Book [Admiração radical – Um livro de retratos feministas], dedicado a artistas mulheres sub-representadas que consideram inspiradoras – por serem surpreendentes, espertas e inteligentes, ou simplesmente irresistíveis. Essa admiração acabou levando a pinturas, uma para cada artista com quem elas gostariam de passar um tempo, junto com várias citações e as respectivas obras, lutas e estratégias de cada artista. Através desse projeto radical de coautoria, a série de onze telas Radical Admiration reflete os objetivos das artistas de renegociar questões de representação e a escrita de suas histórias. Voltados a um público adolescente, os textos que acompanham as imagens mergulham em outro conjunto de ideias, a saber, pinturas ruins e o sofá como terceiro integrante do coletivo. Fazendo elaborações sobre processos mútuos e espiando momentos íntimos de suas negociações, Kaj Osteroth refletirá sobre o potencial de trabalhar junto e admirações vindouras para além disso.

MARIELA SCAFATI
A vida se impõe

A vida se impõe é o nome de uma obra que realizei em 2017 no Rio de Janeiro, com colaboração de várias pessoas que conheci na cidade. A fala acontecerá por meio de um Teatro Kamishibai, um teatro de origami de origem japonesa. A vida se impõe como um modo de resistência ante todas as violências machistas e institucionais em todo nosso território, é chegado o momento de compartilhá-la e, por que não, também multiplicá-la.
 
NATALIE BELL
Diferença, gatilhos e o ponto onde estamos agora

Com a exposição realizada em 2017 no New Museum, Trigger: Gender as a Tool and a Weapon [Gatilho: o gênero como ferramenta e arma], cuja curadoria foi compartilhada com Johanna Burton e Sara O’Keeffe, buscamos questionar o lugar do gênero hoje dentro da arte contemporânea e de discussões maiores sobre cultura e teoria. Uma das principais perguntas que nós fizemos foi como pensar em gênero para além do binário pode abrir novas maneiras de pensar a identidade de maneira mais ampla. Uma série de questões surge invariavelmente para várias pessoas: pensar o gênero como algo não binário enfraquece as contribuições às políticas e à teoria feminista do passado, ou a urgência da política feminina hoje? Será que o feminismo pode ir além de uma noção binária de gênero? Se sim, por que ele deveria? Minha apresentação abordará mudanças essenciais para teorizar a instabilidade e a performatividade de gênero, a desestabilizante força da teoria queer e como a exposição Trigger acabou engajando questões emergentes e ainda trouxe à superfície novas questões próprias a si.
 
17h – 18h
Conversa com Anna Bella Geiger

PARTICIPANTES

Ana Paula Cavalcanti Simioni
Livre-docente em Sociologia da Arte pelo Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo, onde atua como docente, pesquisadora e orientadora de pós-graduação. Desde 2000 vem se dedicando às relações entre arte e gênero no Brasil e na França no século 19 e na primeira metade do 20. Dentre suas publicações, destaca-se Profissão artista: pintoras e escultoras acadêmicas brasileiras, publicado pela EDUSP/FAPESP em 2008. Em 2015, junto a Elaine Dias, foi curadora da exposição Mulheres artistas: as pioneiras, na Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Anna Bella Geiger
Nasceu no Rio de Janeiro em 1933. Graduada em Línguas Anglo-Germânicas na Faculdade Nacional de Filosofia (UFRJ), ainda nos anos 1950, estudou História da Arte e Sociologia da Arte com Hanna Levy Deinhardt, na New York University e na New School for Social Research. Expõe regularmente no Brasil e no exterior. Seus trabalhos integram coleções importantes como a do MoMA, Centre Georges Pompidou, Tate Modern, Victoria and Albert Museum, Reina Sofia, The Fogg Collection, entre outras. Publicou, com Fernando Cocchiarale, o livro Abstracionismo geométrico e informal (Funarte, 1987). Ensina no Higher Institute for Fine Arts (HISK), em Ghent, na Antuérpia, e na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro.

Amy Tobin 
Conferencista do departamento de História da Arte da University of Cambridge e curadora do Kettle’s Yard. Em 2017, concluiu o doutorado na University of York, no Reino Unido, com uma tese sobre arte e feminismo nos anos 1970. Sua pesquisa já foi publicada em periódicos como British Art Studies, MIRAJ e Tate Papers, além dos livros publicados Collaboration and its (Dis)Contents (Courtauld Books Online, 2017), Feminism and Art History Now (IB Tauris, 2017) e A Companion to Feminist Art (Blackwell, 2017). Também coeditou The Art of Feminism (Chronicle e Tate, 2018), junto com Lucy Gosling, Helena Reckitt e Hilary Robinson. Atualmente, está trabalhando em uma monografia sobre feminismo, arte e irmandade.
 
Georgina G. Gluzman
Doutora em História e Teoria das Artes pela Universidad de Buenos Aires, onde também fez a graduação. Seu trabalho foi financiado pela Getty Foundation e pelo Institut National d’Histoire de l’Art. Atualmente é pesquisadora assistente do CONICET e atua como professora de história da arte argentina e estudos de gênero na Universidad de San Andrés. É autora de Trazos invisibles. Mujeres artistas en Buenos Aires (1890-1923), publicado em 2016. 

Kaj Osteroth
Artista baseada nas margens urbanas de Berlim, estudou antropologia, história da arte e artes visuais com Stan Douglas. Em 2007, embarcou em um projeto de longo prazo com Lydia Hamann: Fleeing the Arch. Pintando juntas, a dupla experimenta o caráter colaborativo em sua prática como uma constante renegociação de questões ligadas à subjetividade, trabalho, empoderamento, autocuidado e amizade. Juntas elas desenvolvem estratégias queer e feministas de produção de conhecimento e recusa, ao passo que ampliam o entendimento do meio da pintura no domínio da performance e do cuidado. Recentemente, em 2018, o trabalho delas participou da Bienal de Berlim.

Kanitra Fletcher
Doutoranda do departamento de História da Arte da Cornell University em estética e vanguardismo na arte moderna e negra americana. Fletcher é formada em literatura inglesa pela Rutgers University em New Brunswick e mestre em estudos latino-americanos pela University of Texas em Austin. Atualmente é baseada em Houston, no Texas, e trabalha como curadora assistente do departamento de Arte Moderna e Contemporânea do Museum of Fine Arts de Houston e curadora de vídeo-arte do Landmarks, programa de arte pública da University of Texas em Austin.
 
Mariela Scafati
Serigrafista queer, pintora e docente. Vive e trabalha em Buenos Aires desde 1997, depois de cursar a Escuela de Artes Visuales de Bahía Blanca. Desde 2010, é agente do CIA – Centro de Investigaciones Artísticas. A partir de 2000, participou de exposições individuais e coletivas, e sua obra integra coleções de museus na América Latina, Europa e Estados Unidos. Participou de projetos coletivos e colaborativos vinculados à serigrafia, educação, rádio e teatro. Co-fundou o TPS – Taller Popular Serigrafía em 2002 e é integrante do coletivo Serigrafistas Queer. Desde 2016, faz parte do Cromoactivismo, junto com Guillermina Mongan, Victoria Musotto, Daiana Rose e Marina de Caro.
 
Natalie Bell
Curadora associada do New Museum, em Nova York, onde desde 2013 atua na curadoria e co-curadoria de uma dúzia de exposições individuais e várias exposições coletivas de peso, incluindo Trigger: Gender as a Tool and a Weapon (2017), The Keeper (2016) e Here and Elsewhere (2014). Antes de trabalhar no New Museum, Bell foi curadora assistente do The Encyclopedic Palace, exposição internacional da 55a Bienal de Veneza (2013). É formada em filosofia pelo Barnard College e mestre na mesma área pelo CUNY Graduate Center, em Nova York.