Antes de nomear uma região, uma identidade ou uma comunidade de origem ou de destino, “América Latina” nomeia territórios sobrepostos e histórias entrelaçadas – uma zona de disputas políticas, culturais e simbólicas marcada por invasões coloniais, movimentos de independência, modernizações autoritárias e lutas indígenas, negras, feministas e ecológicas. Consolidada no século 19, a noção designa o México, a América Central, parte do Caribe e a América do Sul, onde predominam línguas de origem latina, sobretudo o espanhol e o português. Pensar a América Latina é, portanto, lidar com uma ideia instável. Histórias latino-americanas parte dessa instabilidade: não busca uma síntese totalizante, nem pretende fixar uma definição do que a América Latina significa. A exposição olha para o passado e o presente, perguntando como a região foi e continua sendo inventada, disputada e reinventada.
Ocupando os cinco andares expositivos do Edifício Pietro, a mostra reúne 187 obras de 148 artistas, provenientes de 20 países. A seleção abrange a América Latina e suas diásporas, além de contextos historicamente conectados à região. O conjunto articula obras do acervo do MASP com empréstimos de museus e coleções públicas e privadas do Brasil e do exterior. Em vez de organizar a arte latino-americana por escolas nacionais, movimentos ou sequências cronológicas, a mostra adota uma estrutura temática e produz encontros entre tempos distintos: objetos pré-coloniais convivem com produções contemporâneas, imagens devocionais e religiosas com obras conceituais, documentos e cartografias com pinturas, fotografias e vídeos.
A exposição está organizada em cinco núcleos, cada um ocupando um dos andares do Edifício Pietro. O mundo ao revés, no 6º andar, examina a invasão europeia das Américas e o papel das imagens na descrição, classificação e administração colonial dos territórios. Retórica do progresso, no 5º andar, trata dos projetos de modernização e industrialização e das promessas de racionalidade que produziram fábricas e cidades planejadas, mas também desigualdades e violências. Sociedades americanas, no 4º andar, volta-se para formas de vida coletiva e imaginação política, retomando tradições pedagógicas e emancipatórias e experiências de organização comunitária. Estamos em salsa, no 3º andar, percorre as rotas de circulação de sons, mercadorias e imagens, além das migrações e diásporas que transformaram culturas latino-americanas. A queda do céu, no 2º andar, parte do pensamento indígena contemporâneo para refletir sobre o esgotamento das utopias modernas e reúne trabalhos em torno da tecnologia, da ecologia e do sonho diante da devastação produzida pela ideia de progresso.
Histórias latino-americanas apresenta a região como um território de conflito e criação, cujas histórias, feitas de fraturas, sobreposições e persistências, continuam a ser produzidas e disputadas no presente.
Histórias latino-americanas é curada por Amanda Carneiro, curadora, e Julieta González, curadora adjunta de arte moderna e contemporânea, com assistência curatorial de Teo Teotônio, assistente curatorial. A exposição integra o ano dedicado às Histórias latino-americanas, que também inclui mostras individuais de Carolina Caycedo, Claudia Alarcón & Silät, Coletivo Acciones de Arte, Damián Ortega, Jesús Soto, La Chola Poblete, Manuel Herreros de Lemos e Mateo Manaure Arilla, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Sandra Gamarra Heshiki, Santiago Yahuarcani e Sol Calero, bem como mostras na Sala de Vídeo de Clara Ianni, Claudia Martínez Garay, Edgar Calel, Oscar Muñoz e Regina José Galindo.