O Colectivo Acciones de Arte (CADA) é uma referência fundamental para as práticas artísticas e políticas latino-americanas no final do século 20. Formado em Santiago, o CADA realizou, entre 1979 e 1985, oito ações no espaço público e em meios de comunicação, confrontando a violência, a fome e a repressão no Chile daquele período. Suas intervenções buscavam ampliar a participação social e reimaginar a cidade como um território a ser ocupado, afirmando a arte como meio de experimentação democrática radical.
Esta é a primeira exposição panorâmica sobre a obra de Sandra Gamarra Heshiki (Lima, 1972), artista central na arte contemporânea latino-americana e internacional. Gamarra iniciou sua carreira em meados dos anos 1990, trabalhando com pintura e instalações. Em 2002, criou o LiMac, Museo de Arte Contemporáneo de Lima, uma espécie de museu imaginário ou fictício, o que constitui uma virada conceitual importante em sua trajetória.
O LiMac apontava para a carência de museus e acervos públicos de arte no Peru, por meio da produção de cópias de trabalhos de artistas contemporâneos feitos pela própria Gamarra a partir de livros e revistas que chegavam ao país. Naquele mesmo ano, Gamarra mudou-se para Madrid, Espanha, onde começou a desenvolver outro aspecto fundamental de sua obra: uma crítica à violência por trás de tantas obras de arte do período colonial, assim como ao modo como os museus mostram e classificam suas coleções.
A apropriação, a cópia e a intervenção sobre trabalhos de diferentes períodos da história da arte são fundamentais na obra da artista, daí o título deste projeto: Réplica. A mostra inclui 72 obras produzidas desde 2003 e é organizada com uma alusão à cronologia convencional dos museus de arte latino americanos, dividida em seis núcleos: “pré-colonial” (“inka” e “pré-inka”), “colonial”, “pós-independência”, “moderno”, “contemporâneo” e LiMac.
Na última sala, Gamarra propõe um grande conjunto de pinturas sobre papel, com réplicas de todas as páginas com reproduções de obras nesta mostra em seu catálogo, além de disponibilizar ao público fotocópias dessas peças. Com esse gesto, a artista recupera o procedimento da cópia que a acompanha há 25 anos, agora voltado para sua trajetória mostrada nesta primeira exposição retrospectiva, uma espécie de resposta, ou réplica, à sua própria obra.
Sandra Gamarra Heshiki: réplica tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico, MASP; Florencia Portocarrero, curadora convidada, MALI; Guilherme Giufrida, curador assistente, MASP; e Sharon Lerner, diretora, MALI. A apresentação no MASP é curada por Giufrida e Pedrosa.
A força ancestral do ato de tecer está no centro da obra de Claudia Alarcón & Silät, coletivo de tecedeiras do povo Wichí. Formado em 2023, o grupo é hoje composto por mais de cem mulheres que vivem nas comunidades de La Puntana e Alto La Sierra, no norte da província de Salta, na Argentina. Suas obras são produzidas com fios de chaguar, uma bromélia nativa da região caracterizada por suas fibras resilientes.
O Silät articulou-se a partir de oficinas que propunham pensar novos formatos para as bolsas yicas, um objeto central para a cultura wichí. As yicas apresentam motivos geométricos que remetem a animais e plantas da região. Embora seja o ponto de partida do trabalho de Alarcón & Silät, suas obras transcendem esse repertório tradicional. Sob a liderança de Alarcón, o coletivo desenvolveu técnicas para que os tecidos fossem trabalhados por mais de uma tecedeira simultaneamente, enfatizando a noção de construção e autoria coletiva. De maneira poética, combinam em uma mesma obra diferentes padronagens e referências ao universo das artistas, sua mitologia e território: o outono e o inverno, o fio da noite, o andar dos ventos, os caminhos inventados, as mulheres estrelas, as memórias e as cicatrizes, o que se escuta no monte. Desse modo, um trabalho aparentemente abstrato e geométrico ganha conotações profundamente complexas e cheias de vida.
Viver tecendo — subtítulo da exposição no MASP — sublinha o entendimento de tecer como um ato contínuo, uma prática que atravessa gerações, integrada ao movimento da vida. Preservar essa prática é, em si, um gesto de coragem. Reinventá-la, um ato de ousadia.
Claudia Alarcón & Silät: viver tecendo é curada por Adriano Pedrosa, diretor artístico, e Laura Cosendey, curadora assistente, MASP.
A exposição integra o ano dedicado às Histórias latino-americanas, que inclui mostras monográficas de Carolina Caycedo, Colectivo Acciones de Arte, Damián Ortega, Jesús Soto, La Chola Poblete, Manuel Herreros de Lemos e Mateo Manaure Arilla, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Sandra Gamarra Heshiki, Santiago Yahuarcani, Sol Calero, além da coletiva Histórias latino-americanas, bem como mostras na Sala de Vídeo de Clara Ianni, Claudia Martínez Garay, Edgar Calel, Oscar Muñoz e Regina José Galindo.
Trabalhando com vídeo, instalação, escultura e desenho, Clara Ianni (São Paulo, 1987) investiga como se constroem narrativas históricas e políticas em uma perspectiva contemporânea.
Na videoinstalação Openings [Aberturas] (2022), Ianni reúne animações produzidas pelos estúdios Walt Disney para aberturas de documentários sobre a América Latina, realizados entre 1941 e 1949 pelo Office of the Coordinator of Inter-American Affairs [Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos]. Criada pelo governo dos Estados Unidos, essa agência tinha como objetivo promover a cooperação interamericana no contexto da chamada “política de boa vizinhança”, a fim de ampliar as relações políticas, culturais e econômicas e conter a influência italiana e alemã na região.
Embora as aberturas e os títulos dos documentários enfatizem um discurso de solidariedade pan-americana — como em Gracias, amigos, Bazar Pan-Americano e Estradas para o Sul —, eles também apresentam os países latino-americanos como fornecedores de mão de obra barata, matérias-primas e mercados consumidores. O quartzo do Brasil vai à guerra, por exemplo, destaca a importância estratégica do cristal brasileiro para equipamentos militares durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Outros filmes percorrem diferentes países da região: Jovem Uruguai, Isto é… o Equador, Os Incas: Anciões dos Andes e Monumentos do México Antigo. Combinando entretenimento e pedagogia, os documentários difundem uma imagem da América Latina como culturalmente próxima, mas economicamente subordinada.
Quase um século depois, as investidas imperialistas estadunidenses seguem em curso na América Latina, fazendo uso de estratégias culturais para fins políticos e econômicos. Ianni nos coloca em contato com o passado, mas de uma maneira absolutamente fincada no presente. Com sua colagem de títulos e aberturas projetada em um suporte semelhante a um outdoor, a artista sublinha o caráter de propaganda dos documentários, revelando os padrões visuais e discursivos que sustentam tais representações.
Sala de Vídeo: Clara Ianni é curada por Daniela Rodrigues, supervisora de mediação e programas públicos, MASP. A exposição integra o ano dedicado às Histórias latino-americanas, que também inclui mostras individuais de Carolina Caycedo, Claudia Alarcón & Silät, Coletivo Acciones de Arte, Damián Ortega, Jesús Soto, La Chola Poblete, Manuel Herreros de Lemos e Mateo Manaure Arilla, Pablo Delano, Rosa Elena Curruchich, Sandra Gamarra Heshiki, Santiago Yahuarcani e Sol Calero, além da coletiva Histórias latino-americanas, bem como mostras na Sala de Vídeo de Claudia Martínez Garay, Edgar Calel, Oscar Muñoz e Regina José Galindo.
O MASP – Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand apresenta, a partir de 11 de abril, a exposição Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos, que reúne 34 arpilleras produzidas pelo Coletivo Nacional de Mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). As peças foram confeccionadas coletivamente por mulheres de todo o Brasil, em rodas de bordado organizadas pelo coletivo, como expressão de suas vivências e lutas diante dos impactos sociais e ambientais causados pela construção, operação e pelo rompimento de barragens.
As arpilleras, peças têxteis que se tornaram símbolo da memória e da luta por direitos humanos, são composições de retalhos de tecido bordado sobre juta. A técnica surgiu no Chile nos anos 1960 e, durante a ditadura de Augusto Pinochet, tornou-se uma expressão cultural e política de protagonismo feminino. Criadas principalmente por mulheres — muitas delas mães, esposas e familiares de presos políticos e desaparecidos —, essas obras retratam cenas do cotidiano, da repressão e da luta por direitos. O Coletivo Nacional de Mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) passou a utilizar a técnica em 2013 para abordar temas como a violência doméstica, a ruptura de vínculos entre a terra e a comunidade, a violência contra crianças e adolescentes, a falta de acesso à água potável e à energia elétrica, e os impactos das barragens e da poluição de rios na pesca e na subsistência das famílias, entre outras violações aos direitos humanos e ambientais.
Com curadoria de Glaucea Helena de Britto, curadora assistente, MASP, e Isabella Rjeille, curadora, MASP, esta exposição reúne arpilleras de diferentes regiões do Brasil, produzidas entre 2014 e 2024. Organizadas cronologicamente, essas peças contemplam uma grande diversidade de técnicas e temas. Cada arpillera é contextualizada por uma carta escrita pelas autoras, guardada em um bolso no verso de cada peça, evidenciando o caráter coletivo e de organização popular do processo de realização de cada peça. Na mostra, o público terá acesso à seleção de 6 cartas manuscritas.
“Para muitas pessoas, a arpillera pode parecer apenas uma obra de arte para pendurar na parede. Para nós, o significado político desse testemunho têxtil está na organização das mulheres, na luta pelos seus direitos e na proposição política — dos sonhos, das utopias, daquilo que almejamos. É denúncia, mas também é um projeto de esperança”, diz Daiane Höhn, militante do MAB.
Sobre a organização das mulheres no MAB
O Coletivo Nacional de Mulheres do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) é um núcleo dentro do movimento que articula a luta das mulheres atingidas em todo o país, fortalecendo sua participação política e promovendo ações de denúncia e resistência. Desde sua criação, tem ampliado a presença feminina nos espaços de decisão e consolidado estratégias para garantir direitos e enfrentar as violações causadas pela construção, operação e pelo rompimento de barragens. No último período, as atingidas também têm promovido debates e fortalecido a organização com mulheres impactadas por desastres climáticos, que, de forma semelhante, geram desestruturação comunitária e familiar, com impactos específicos na vida das mulheres e violações de direitos das famílias.
Desde 2013, as mulheres do MAB organizam oficinas nas quais, por meio do bordado, constroem narrativas visuais que denunciam injustiças socioambientais, registram memórias e reforçam redes de apoio. As arpilleras tornaram-se um símbolo da resistência das mulheres atingidas.
Durante a exposição, o movimento promove duas oficinas de arpilleras abertas ao público. A primeira é no sábado, 12.04, das 10h30 às 13h30, e a segunda é no domingo, 27.04, também das 10h30 às 13h30.
Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos integra a programação anual do MASP dedicada às Histórias da ecologia. A programação do ano também inclui mostras de Abel Rodríguez, Clarissa Tossin, Claude Monet, Emilija Škarnulytė, Frans Krajcberg, Hulda Guzmán, Inuk Silis Høegh, Janaina Wagner, Maya Watanabe, Minerva Cuevas, Tania Ximena, Vídeo nas Aldeias e a grande coletiva Histórias da ecologia.
ACESSIBILIDADE
Todas as exposições temporárias do MASP possuem recursos de acessibilidade, com entrada gratuita para pessoas com deficiência e seu acompanhante. São oferecidas visitas em Libras ou descritivas, além de textos e legendas em fonte ampliada e produções audiovisuais em linguagem fácil – com narração, legendagem e interpretação em Libras que descrevem e comentam os espaços e as obras. Os conteúdos, disponíveis no site e no canal do YouTube do museu, podem ser utilizados por pessoas com deficiência, públicos escolares, professores, pessoas não alfabetizadas e interessados em geral.
CATÁLOGO
Na ocasião da mostra, será publicado um catálogo bilíngue, em inglês e português, composto por imagens e ensaios comissionados de autores fundamentais para o estudo da obra e luta do MAB. A publicação tem organização de Isabella Rjeille, curadora, MASP, e Glaucea Helena de Britto, curadora assistente, MASP, e textos de Roberta Bacic, Monise Vieira Busquets e Carolina Caycedo, além de uma entrevista com Daiane Höhn, Esther Vital e Louise Löbler. O catálogo conta com a reprodução de 47 arpilleras produzidas pelo coletivo, além de textos que contextualizam cada peça.
REALIZAÇÃO E APOIO
Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos é realizada por meio da Lei Federal de Incentivo à Cultura e PROAC ICMS.
SERVIÇO
Mulheres Atingidas por Barragens: bordando direitos
Curadoria: Glaucea Helena de Britto, curadora assistente, MASP, e Isabella Rjeille, curadora, MASP.
11.4 — 3.8.2025
Mezanino, 1º subsolo, Edifício Lina Bo Bardi
MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand
Avenida Paulista, 1578 – Bela Vista, São Paulo, SP 01310-200
Telefone: (11) 3149-5959
Horários: terças grátis, das 10h às 20h (entrada até as 19h); quarta e quinta das 10h às 18h (entrada até as 17h); sexta das 10h às 21h (entrada gratuita das 18h às 20h30); sábado e domingo, das 10h às 18h (entrada até as 17h); fechado às segundas.
Agendamento on-line obrigatório pelo link masp.org.br/ingressos
Ingressos: R$ 75 (entrada); R$ 37 (meia-entrada)
Programação de oficinas gratuitas
12.04, Sábado, 10h30 às 13h30 – Oficina Bordando direitos, com Caroline Mota Laino e Daiane Carlos Höhn, ativistas do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
27.04, Domingo, 10h30 às 13h30 – Oficina Bordando direitos
Inscrições on-line: https://masp.org.br/oficinas
Site oficial
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ASSESSORIA DE IMPRENSA
Carolina Caycedo, Minha linhagem feminina da luta ambiental, da série Genealogia da luta, 2018-19
Carolina Caycedo, Mulheres em mim, 2010-19
Atenção: esta edição foi adiada. A nova data será definida e comunicada em breve.