A sexualidade e o erotismo são temas centrais na produção de Tunga (Palmares, Pernambuco 1952 – Rio de Janeiro, 2016) desde sua primeira exposição individual, intitulada Museu da masturbação infantil, realizada em 1974 no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Essa mostra de 1974 incluiu desenhos abstratos que, posteriormente, pautariam o raciocínio acerca desses temas na produção do artista. Eram obras cujas formas evocavam imagens eróticas ou processos de gozo, elementos que reaparecem aqui expostos em desenhos daquele mesmo ano.
Arquiteto de formação, Tunga transitou por diferentes linguagens, das artes visuais à literatura, incluindo a escultura, a instalação, o desenho, a aquarela, gravura, vídeo, texto e a instauração. Frequentemente, suas obras se alimentam de um repertório que provém de distintos campos do conhecimento, como a psicanálise, a filosofia, a química, a alquimia, bem como as memórias e as ficções.
Nesta exposição, a sexualidade não constitui apenas um tema da produção do artista, mas um modo de compreender relações, vínculos, transformações e criações entre corpos, matérias e linguagens. A escolha dos trabalhos e sua disposição no espaço foram definidas a fim de potencializar essas relações e promover diálogos entre obras de diferentes períodos e técnicas, em detrimento de uma organização cronológica.
O título da mostra Tunga: o corpo em obras tem duplo sentido: alude tanto ao corpo como assunto das obras do artista, como propõe um olhar sobre sua produção como um corpo continuamente em obras, ou seja, em constante transformação. Essa leitura surgiu da natureza diversa e circular da obra de Tunga, cujos trabalhos não se encerram em categorias estanques. Referências ao corpo, à sexualidade e ao erotismo podem ser observadas em todas as obras expostas: o nu (Vê-nus e Eixos exógenos), a pele e a maquiagem (em desenhos ou sobre as esculturas na série Lábios), os cabelos (Tranças e Escalpes), dedos, vulvas e falos (Morfológicas e A cada doze dias e uma carta), o masculino e o feminino (Tacapes e Tranças) e o magnetismo do desejo (com os ímãs em Tacapes, Lezart e Palíndromo incesto).
A exposição Tunga: o corpo em obras encerra o programa anual de 2017 do MASP em torno das histórias da sexualidade, que incluiu mostras individuais dos artistas Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Miguel Rio Branco, Toulouse-Lautrec, Tracey Moffatt, Guerrilla Girls, Pedro Correia de Araújo e a exposição coletiva Histórias da sexualidade. Nesta ocasião, o MASP agradece muito especialmente ao Acervo Tunga pela doação de uma escultura da série Morfológicas exposta nesta mostra.
A exposição tem curadoria de Isabella Rjeille, assistente curatorial e Tomás Toledo, curador, MASP. A expografia é da Metro Arquitetos Associados.
O sexo é parte integral de nossa vida e, sem ele, sequer existiríamos. Por isso, a sexualidade tem desde sempre ocupado lugar central no imaginário coletivo e na produção artística. A exposição Histórias da sexualidade traz um recorte abrangente e diverso dessas produções. O objetivo é estimular um debate — urgente na atualidade —, cruzando temporalidades, geografias e meios. Episódios recentes ocorridos no Brasil e no mundo trouxeram à tona questões relativas à sexualidade e aos limites entre direitos individuais e liberdade de expressão, por meio de embates públicos, protestos e violentas manifestações nas mídias sociais. O MASP, um museu diverso, inclusivo e plural, tem por missão estabelecer, de maneira crítica e criativa, diálogos entre passado e presente, culturas e territórios, a partir das artes visuais. Esse é o sentido do programa de exposições, seminários, cursos, oficinas e publicações em torno de muitas histórias — histórias da infância, da sexualidade, da loucura, das mulheres, histórias afro-atlânticas, feministas, entre tantas outras.
Concebida em 2015, esta exposição é fruto de longo e intenso trabalhoe foi antecedida por dois seminários internacionais realizados em setembro de 2016 e em maio de 2017. A exposição se insere em uma programação anual do MASP totalmente dedicada às histórias da sexualidade, que em 2017 inclui mostras individuais de Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Miguel Rio Branco, Henri de Toulouse-Lautrec, Tracey Moffatt, Pedro Correia de Araújo, Guerrilla Girls e Tunga. São mais de 300 obras reunidas em nove núcleos temáticos e não cronológicos — Corpos nus, Totemismos, Religiosidades, Performatividades de gênero, Jogos sexuais, Mercados sexuais, Linguagens e Voyeurismos, na galeria do primeiro andar, e Políticas do corpo e Ativismos, na galeria do primeiro subsolo. A mostra inclui também a sala de vídeo no terceiro subsolo, como parte do núcleo Voyeurismos. Algumas obras de artistas centrais de nosso acervo — como Edgard Degas, Maria Auxiliadora da Silva, Pablo Picasso, Paul Gauguin, Suzanne Valadon e Victor Meirelles — são agora expostas em novos contextos, encontrando outras possibilidades de compreensão e leitura. Ao lado delas, uma seleção de trabalhos de diferentes formatos, períodos e territórios compõem histórias verdadeiramente múltiplas, que desafiam hierarquias e fronteiras entre tipologias e categorias de objetos da história da arte mais convencional — da arte pré-colombiana à arte moderna, da chamada arte popular à arte contemporânea, da arte sacra à arte conceitual, incluindo arte africana, asiática, europeia e das Américas, em pinturas, desenhos, esculturas, fotografias, fotocópias, vídeos, documentos, publicações, entre outros.
Nessas histórias, não há verdades absolutas ou definitivas. As fronteiras do que é moralmente aceitável deslocam-se de tempos em tempos. Esculturas clássicas que são ícones da história da arte não poucas vezes tiveram o sexo encoberto. Também os costumes variam entre as culturas e civilizações. Em diversas nações europeias e comunidades indígenas, é natural a nudez exposta em lugares públicos; a poligamia é aceita em alguns países islâmicos; a prostituição é prática legal em alguns estados e condenada em outros; há países onde o aborto é livre mas há outros onde é proibido. Até mesmo o conceito de criança mudou ao longo do tempo, assim como as regras de especificação etária.
O único dado absoluto, do qual não podemos abrir mão, é o respeito ao outro, à diferença e à liberdade artística. Portanto, é preciso reafirmar a necessidade e o espaço para o diálogo e que se criem condições para que todos nós — cada um com suas crenças, práticas, orientações políticas e sexualidades — possa conviver de forma harmoniosa.
A classificação indicativa de Histórias da sexualidade é de 18 anos. Dessa forma, de acordo com a regulamentação vigente, menores de 18 anos poderão visitar a exposição desde que acompanhados dos pais ou responsáveis.
A exposição Histórias da sexualidade tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico do MASP; Camila Bechelany, curadora assistente do MASP; Lilia Schwarcz, curadora-adjunta de histórias do MASP; e Pablo León de la Barra, curador-adjunto de arte latino-americana do MASP.
Tracey Moffatt (Brisbane, Austrália, 1960) produz vídeos, filmes e fotografias que têm como referência o universo da cultura visual; a artista utiliza-se de técnicas de direção e imagens do cinema, da história da arte e da cultura popular que giram em torno de temas como sexualidade e identidade. Os vídeos reunidos nesta mostra — LOVE [Amor, 2003], OTHER [Outro, 2009] e LIP [Atrevimento, 1999] — integram a série Montages [Montagens, 1999-2015], realizada em colaboração com o editor Gary Hillberg a partir de filmes hollywoodianos e clássicos cult. Estes trabalhos têm como foco os estereótipos e as representações de gênero, classe social e alteridade no cinema.
O vídeo LOVE [Amor] é uma compilação de trechos de filmes em que o amor romântico heterossexual é representado por declarações apaixonadas, rompimentos, rejeições ou violência. A dramaticidade das cenas é intensificada por uma trilha que perpassa os diferentes estágios de um relacionamento, em uma narrativa com começo, meio e fim. Este vídeo revela como papéis masculinos e femininos são traduzidos em clichês cinematográficos. Nas cenas, o amor é um campo de batalha, que evidencia relações de poder baseadas em gênero e posição social.
Em OTHER [Outro], colonização e desejo se confundem nas representações do “não ocidental” pelo cinema hollywoodiano. Identidade e colonialismo são temas centrais na produção de Moffatt, que tem origem aborígene. Neste vídeo, o outro é interpretado como o exótico sedutor, capaz de despertar medo, curiosidade, fascínio e desejo sexual no colonizador branco. Conforme a narrativa se desenrola, os encontros entre “colonizado” e “colonizador” se intensificam e culminam no ato sexual em si, desfazendo fronteiras e diferenças entre eles. O vídeo revela também uma construção narrativa frequente sobre a colonização veiculada pelo cinema, que, por meio de uma erotização do outro, apazigua romanticamente as violentas histórias coloniais.
Por fim, LIP [Atrevimento] reúne trechos de filmes em que atrizes majoritariamente negras interpretam papéis de empregadas domésticas, babás, cozinheiras e garçonetes “respondendo” às patroas, mulheres brancas. O título faz referência à expressão inglesa “giving lip”, que indica atos de insubordinação, através dos quais um subalterno dirige comentários jocosos e “atrevidos” a um superior, por exemplo. Com este vídeo, Moffatt inverte a noção de subserviência por parte dessas personagens, que, com humor e ironia, satirizam comportamentos racistas e classistas.
Esta mostra está em diálogo com as exposições Toulouse-Lautrec em vermelho; Miguel Rio Branco: Nada levarei qundo morrer; Wanda Pimentel: Envolvimentos e Quem tem medo de Teresinha Soares?, que integram a programação anual do MASP, cujo eixo temático é a sexualidade.
Tracey Moffatt: Montagens tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico, e Isabella Rjeille, assistente-curatorial do MASP
Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) foi um dos artistas europeus mais importantes da virada do século 19 para o século 20, momento decisivo para a arte moderna e palco para as transformações políticas, econômicas e sociais que até hoje marcam a vida nas cidades. O MASP apresenta a mais ampla exposição dedicada ao artista no Brasil, abarcando toda a sua produção, desde os primeiros anos, na década de 1880, até o fim de sua vida, e reunindo 75 obras e 50 documentos. Toulouse-Lautrec em vermelho faz alusão ao salão de entrada de uma luxuosa maison close parisiense, que o artista frequentou nos anos 1890 e onde criou uma relação de amizade com as mulheres que ali trabalhavam. Extrapolando os interiores do salão vermelho, a exposição traz uma profusão de personagens — burgueses, boêmios, trabalhadores, dançarinas e artistas que conviviam em Paris e que fizeram parte do círculo afetivo e artístico de Toulouse-Lautrec.
Toulouse-Lautrec em vermelho se divide em cinco núcleos. O primeiro deles apresenta o mundo das maison closes — “casas fechadas”, em francês — e revela o carinho e a simpatia do pintor em relação às mulheres retratadas. As três obras centrais são apresentadas num painel vermelho, evocando o famoso salão de entrada da maison La Fleur Blanche [A Flor Branca], em Paris. O segundo núcleo da exposição reúne outras representações de mulheres — algo a que Toulouse-Lautrec dedicou especial atenção —, reunindo lavadeiras, modelos de ateliê, burguesas e nobres, e assim evidenciando ou questionando seu papel social. O terceiro núcleo da exposição é dedicado a retratos masculinos. Ao contrário do que ocorre nas representações femininas, conhecemos os nomes de todos os homens na pinturas de Toulouse-Lautrec incluídas na exposição, um sintoma eloquente da discriminação entre homens e mulheres e do papel que cada um exerce na sociedade, na história e na cultura visual. Finalmente, o quarto e o quinto núcleos trazem representações da vida noturna, com seus cabarés, bares, restaurantes e casas de espetáculo que proliferaram em Paris depois que a cidade começou a ser iluminada pela luz elétrica. Aqui vemos diversos personagens, como os trabalhadores que à noite frequentavam o Moulin de la Galette e tentavam esquecer a dura jornada de trabalho, a célebre dançarina Jane Avril (1868-1943) ou o debochado dono de cabaré Aristide Bruant (1851-1925), imortalizados em grandes cartazes que anunciavam seus espetáculos e que acabaram por marcar profundamente a paisagem urbana. Toulouse-Lautrec em vermelho apresenta também uma seleção de 50 documentos, entre cartas, bilhetes, telegramas e fotografias do artista e de seu círculo, que constituem uma memória viva daquela época.
Num contexto mais amplo das histórias da sexualidade e das representações de gênero, a exposição de Toulouse-Lautrec dialoga com as mostras de Teresinha Soares, Wanda Pimentel, Miguel Rio Branco e Tracey Moffatt. Num segundo momento, se relacionará com as de Pedro Correia de Araújo em agosto, Guerrilla Girls em setembro e, em outubro, com a coletiva Histórias da sexualidade.
Toulouse-Lautrec em vermelho tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico, e Luciano Migliaccio, curador-adjunto de arte europeia, e assistência de Mariana Leme, assistente curatorial, MASP.
Esta exposição reúne 61 fotografias da série Maciel, produzida em 1979 por Miguel Rio Branco na área de prostituição de mesmo nome, no Pelourinho, em Salvador. Esta é a maior apresentação da série, com uma seleção inédita feita para a mostra.
Nada levarei qundo [sic] morrer aqueles que mim deve [sic] cobrarei no inferno é a frase que Rio Branco captou de uma parede no interior de uma casa no bairro do Maciel. A sentença de tom profético oferece uma chave de entendimento para o universo dessa região do Pelourinho, abandonada por décadas pelo poder público e conhecida por ser local de prostituição e criminalidade mas também lugar de moradia das populações marginalizadas. Por meses, Rio Branco frequentou o Maciel e estabeleceu um vínculo de afinidade e afeição com seus retratados — como fez Henri de Toulouse-Lautrec (1864-1901) nos bordéis parisienses no final do século 19 que ele representou. A princípio, Rio Branco fez um pacto com seus retratados de que as imagens não seriam exibidas em Salvador, o que lhe garantiu uma relação próxima e franca, possibilitando que a atitude altiva e resoluta dos personagens ganhe protagonismo e poder nas imagens.
A exposição foi organizada em quatro paredes, e cada uma delas enfatiza determinados aspectos da obra de Rio Branco. Na primeira, temos a fotografia que captura a frase-título da mostra, além de diversas cenas de rua em que o estado de deterioração dos edifícios dialoga com o uso que os habitantes deram a eles. Na segunda parede, o sexo se torna mais presente, em retratos e cenas de nudez que adentram os interiores. Na terceira, observam?se as imagens feitas de dentro para fora ou de fora para dentro dos bares, das casas e de prostíbulos. O interior volta a dominar as fotografias da quarta parede da exposição registrando complexas montagens feitas com imagens de revista no interior da zona, estabelecendo relações entre as fotografadas e outras representações do sexo e da mulher.
A exposição das fotografias de Miguel Rio Branco faz parte do eixo de programação do MASP com mostras em torno dos temas da sexualidade e do gênero, e dialoga diretamente com a exposição Toulouse-Lautrec em vermelho, localizada na galeria do primeiro andar do Museu, e Tracey Moffatt: Montagens, que se encontra na sala de vídeo do segundo subsolo.
Miguel Rio Branco: nada levarei qundo morrer tem curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico, Rodrigo Moura, curador-adjunto de arte brasileira, e assistência de Tomás Toledo, curador. A expografia é da METRO Arquitetos Associados.
No ano dedicado às mostras em torno dos temas da sexualidade e do gênero, o MASP apresenta a primeira exposição panorâmica da artista Teresinha Soares. A mostra reúne um conjunto de mais de sessenta obras — muitas delas inéditas ou que ficaram desaparecidas por décadas —, produzidas entre 1966 e 1973, no auge da carreira da artista. Soares deixou definitivamente de produzir arte em 1976, depois de realizar uma trajetória meteórica. O título Quem tem medo de Teresinha Soares? faz menção ao caráter transgressor, contestatório e antipatriarcal de sua obra. Foi apropriado de um artigo de jornal publicado em 1973 e se refere à peça do dramaturgo inglês Edward Albee (1928-2016) Quem tem medo de Virginia Woolf? (1962). De acordo com Albee, essa frase é uma maneira de perguntar: “Quem tem medo de viver a vida sem falsas ilusões?”. De modo semelhante, pergunta-se aqui: A quem incomodava (e incomoda) a arte de Teresinha Soares e por quê?
A mostra tem um caráter panorâmico e reúne grande parte da produção da artista, entre pinturas, gravuras, cartazes, relevos, objetos, instalações, recriação e documentação de performances e happenings. A representação do corpo feminino é o principal interesse de toda sua obra e assume diversas inflexões: o erotismo, as relações do corpo com os costumes morais, o consumo, a máquina e a política. O sexo emerge como força motriz e libertadora, algo que ganha significados particulares no contexto repressivo da ditadura militar brasileira (1964-85) e revela um movimento contrário às convenções machistas da sociedade e do mundo da arte. A exposição sublinha o pioneirismo da artista no tratamento de temas feministas e de gênero e também sua relação com movimentos artísticos do período, como a arte pop, o nouveau réalisme e a nova objetividade brasileira. No final dos anos 1960 e início da década de 1970, uma série de obras feministas transformou a arte contemporânea questionando e criticando várias de suas premissas, um fenômeno global no qual os trabalhos de Soares devem ser contextualizados.
Simultaneamente à exposição, o MASP edita o primeiro grande catálogo monográfico da artista. Com isso, o Museu cumpre um papel crucial, algo que, de fato, é sua responsabilidade institucional: apresentar ao grande público uma obra que hoje, mais de quarenta anos depois, deve ser reconsiderada e reinscrita na história recente da arte brasileira.
Quem tem medo de Teresinha Soares? tem curadoria de Rodrigo Moura, curador-adjunto de arte brasileira do MASP, e Camila Bechelany, curadora-assistente do MASP. O escritório de arquitetura METRO Arquitetos Associados assina a expografia da mostra.
Ndedicado às mostras em torno dos temas da sexualidade e do gênero, o MASP apresenta a primeira exposição panorâmica da artista Teresinha Soares. A mostra reúne um conjunto de mais de sessenta obras — muitas delas inéditas ou que ficaram desaparecidas por décadas —, produzidas entre 1966 e 1973, no auge da carreira da artista. Soares deixou definitivamente de produzir arte em 1976, depois de realizar uma trajetória meteórica. O título Quem tem medo de Teresinha Soares? faz menção ao caráter transgressor, contestatório e antipatriarcal de sua obra. Foi apropriado de um artigo de jornal publicado em 1973 e se refere à peça do dramaturgo inglês Edward Albee (1928-2016) Quem tem medo de Virginia Woolf? (1962). De acordo com Albee, essa frase é uma maneira de perguntar: “Quem tem medo de viver a vida sem falsas ilusões?”. De modo semelhante, pergunta-se aqui: A quem incomodava (e incomoda) a arte de Teresinha Soares e por quê?Quem tem medo de Teresinha Soares tem curadoria de Camila Bechelany, curadora assistente e Rodrigo Moura, curador adjunto de arte brasileira.
ARTE DA FRANÇA: DE DELACROIX A CÉZANNE
Esta exposição atravessa quase duzentos anos de produção artística na França, dos séculos 18 ao 20, exibindo retratos, paisagens, naturezas-mortas e cenas históricas e do cotidiano, do mais importante acervo do período no Hemisfério Sul. Estão representados artistas de herança neoclássica, como Ingres, e romântica, como Delacroix; além de nomes ligados aos movimentos precursores do modernismo, como o realismo, de Courbet; o impressionismo, de Monet e Degas; o pós-impressionismo, de Cézanne, Van Gogh e Gauguin; o grupo dos Nabis, de Vuillard; e o cubismo, de Picasso e Léger.
Grande parte dessas obras é testemunha das rupturas de natureza política, social e cultural que marcaram a Europa do século 19 e início do 20, quando a arte ganhou outros circuitos de produção e veiculação para além dos salões e encomendas oficiais, como a imprensa e a crítica especializada; os bares onde fervilhava a vida da nova burguesia e intelectualidade; os ateliês e a importância de sua dimensão expandida, especialmente no caso de Picasso; as academias alternativas, como Julian e Suisse, que ofereceram opções à formação mais tradicional da École de Beaux-Arts.
A exposição privilegiou reunir conjuntos completos do acervo, com destaque para Renoir, Toulouse-Lautrec, Modigliani e Manet. Delacroix e Cézanne, juntos no mesmo espaço, na entrada, funcionam como vetores para todo o percurso, uma vez que apontaram, cada um em seu tempo, tanto para o passado quanto para o futuro da história da arte, pontuando transições entre a tradição e o moderno; o antigo e o novo; entre, por exemplo, Ingres e Léger.
Cézanne, que via em Delacroix um mestre e estudava pintura fazendo cópias de suas telas, soube perceber nele qualidades modernistas. Cézanne não só retomou algumas dessas qualidades como emprestou a elas novo significado, caso do encontro entre figura e fundo; do maior protagonismo dado aos elementos do quadro e da pintura, como a pincelada, em detrimento dos temas; e, sobretudo, da maneira como se valeu de um caráter supostamente inacabado de suas pinturas.
Também são exibidos itens do arquivo histórico e fotográfico do MASP, como correspondências sobre doações, aquisições, convites, folhetos de exposições, recortes de jornais, revistas e fotografias que recuperam parte da história das obras e do próprio museu. Apresentados no mesmo plano que as pinturas, apontam para uma redefinição de lugares e hierarquias entre os trabalhos de arte e sua história dentro da instituição, oferecendo um novo estatuto para materiais comumente distantes dos olhos do público.
A disposição dos painéis, dos cabos de aço e das obras, bem como a relação deles entre si e com o espaço, retoma projeto de Lina Bo Bardi, arquiteta do MASP. Em 1950, na antiga sede da rua 7 de Abril, sua expografia já antecipava noções de transparência, leveza e suspensão, sem divisões em salas nem cronologias rígidas. Essas escolhas foram fundamentais e prepararam o terreno para a radical solução das telas dispostas sobre cavaletes de vidro que, ausentes desde 1996, retornarão ao segundo andar do MASP no final deste ano.
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Curadoria de Adriano Pedrosa, diretor artístico; Eugênia Gorini Esmeraldo, coordenadora de intercâmbio; e Fernando Oliva, curador assistente
O título da mostra inspira-se em uma citação de Walter Benjamin em seu ensaio Paris, capital do século XIX. Nele aparece a célebre menção às passagens, galerias comerciais levando de uma rua a outra, cheias de lojas atraentes, cenário singular da vida moderna, parte do mito da Cidade Luz. Os artistas aqui incluídos viveram, produziram, passaram por Paris, cidade criativa antes mesmo que o termo existisse. A exposição interage com A arte do detalhe (e depois, nada), em cartaz desde o inicio de novembro, igualmente patrocinada pelo Banco BTG Pactual.
Nos anos 1920, a expressão Escola de Paris veio a designar a arte imediatamente anterior e aquela logo posterior feita nessa cidade, farol do mundo cultural até que se impusesse outra “Escola”, a de Nova York, com uma arte abstrata em tudo oposta à de Paris que, porém, continuou a fascinar. Àquela época Paris era considerada a capital do mundo e sua força criativa e inspiradora atraía (e ainda hoje atraem) artistas de todas as partes. Suas passagens, galerias comerciais levando de uma rua a outra, cheias de lojas atraentes e cenário singular da vida moderna, eram parte do mito da Cidade Luz.
Passagens por Paris propõe um passeio pela arte moderna, com obras feitas entre 1866 e 1948 por artistas icônicos do período: Manet, Degas, Cézanne, Gauguin, Van Gogh, Matisse, Renoir, Toulouse-Lautrec, Picasso, Modigliani, Portinari, Rego Monteiro... Todos os aqui incluídos viveram, produziram, passaram por Paris. A exposição dá aos visitantes a oportunidade de apreciar algumas das obras mais representativas desse período.
O retrato é talvez o mais poderoso gênero da história das artes visuais, com uma presença que se estende desde pelo menos o século 270 a.C. até os dias de hoje. O fascínio que exerce sobre a imaginação humana é único: continua a ser um elo privilegiado entre a razão e o espírito mágico, que não abandona a humanidade. Isso porque o retrato tanto se entrega ao olhar do observador como o observa atentamente, o que pode ser ao mesmo tempo reconfortante e ameaçador.
As culturas ditas primitivas não deixam de ter razão quando instruem seus membros a negarem-se ao olho da câmera: não é só a aparência do fotografado que a máquina captura, mas também seu espírito, sua essência. O retrato é, assim, um constante exercício de psicologia social e individual.
O RETRATO DA POMPA
Os primeiros retratos autônomos (que não mais são parte da arquitetura) surgem no século 13 e ganham impulso com a invenção da portátil tela de pano como suporte (o mais antigo exemplo da pintura sobre tela é uma madona de 1410). Os retratos deste grupo são ditos "de aparato". A imagem construída pelo artista deve ser impressionante, o retratado é mostrado como alguém especial, subtraído quase aos acidentes do efêmero. Daí serem de certo modo atemporais: não fosse pelas roupas (retratos de mulheres despidas sempre foram aceitáveis mas de homens nus, depois dos tempos clássicos, só na arte contemporânea), que ajudam a configurar e situar os que as envergam, os retratados quase estariam fora de um lugar e de uma época determinados.
São exemplares neste sentido os retratos assinados por Goya, Van Dyck ou Hals: os retratados estão sobre fundo neutro e se deixam ver em poses hieráticas, afirmativas, quer apareçam de corpo inteiro ou de meio corpo. São retratos de pessoas e também de alguma coisa, sobretudo do poder.
Os primeiros retratos foram os da realeza, do alto clero e da aristocracia, donde serem naturalmente "de aparato" (no Renascimento surgem os retratos das pessoas mais comuns ou, em todo caso, os burgueses). Como toda pintura de gênero, o que primeiro se retrata aqui é o próprio código a que a obra pertence - no caso, a própria pompa, a ideia da pompa; o retratado é meio para pintar-se a pompa em si mesma. O retratado existe porque a pompa existe.
O RECURSO À CENA
Os retratos deste grupo apresentam seus modelos junto a alguma coisa, fazendo alguma coisa, representando alguma coisa: compõem, com as outras pessoas ou coisas representadas, uma cena que lhes empresta ou sugere uma qualidade própria. De algum modo, todo retrato compõe uma cena, em particular os retratos de aparato; aqui, porém, a cena é mais explícita e ampla e a narrativa que propõe é mais extensa, se não mais complexa. Várias das obras deste grupo relacionam-se àquelas exibidas entre os retratos da pompa, enquanto outras, em número não menor, remetem-se ao grupo dos retratos modernos, de que poderiam fazer parte com igual propriedade.
Típicos do modo deste conjunto são os retratos por Toulouse-Lautrec e Manet.
É de 1310 a recomendação de Pietro d Abano de que o retrato deveria expressar a aparência e a psicologia, ou a alma, do retratado - algo mais viável nos retratos deste grupo e do próximo, do que naqueles de aparato. Daí não se deve concluir, porém, que a semelhança sempre tenha sido tudo, no retrato: antes da modernidade proposta pelo século 19, conforme o princípio da dissimulação o realismo deveria submeter-se aos interesses contextuais da representação, razão pela qual sobretudo nos retratos de pompa ou aparato os eventuais defeitos físicos dos modelos eram diminuídos ou ocultados. Na contemporaneidade, o corpo humano em seu realismo mais cru, em suas falhas e decadência, será mostrado sem disfarces.
EU MESMO
Atração narcisista pela própria imagem; tentativa de sair de si mesmo para enfim ver-se melhor, ver-se de outro modo; a simples comodidade de ser o modelo mais disponível; no início de sua história, esforço do artista para que o vissem como aqueles que ele próprio retratava, isto é, como um membro das classes altas, das profissões liberais (intelectuais) e não das manuais, que dependiam do esforço físico: tudo isso se encontra na origem e na história do auto-retrato.
Rembrandt, com a retratação insistente de si mesmo, não raro impiedosa, foi um equivalente dos poetas que repetidamente mergulham em si para vislumbrar pelo menos um pouco da natureza humana.
Os temas pelos quais Toulouse-Lautrec tornou-se conhecido não foram a graça e o encanto de Renoir, nem a dureza da paisagem, como em Cézanne, ou uma certa metafísica da tinta, própria de Van Gogh, mas os efeitos de superfície dos cafés e cabarés - a vida trepidante em oposição à ida tranqüila - que construíram parte da identidade atribuída a Paris.
Sua ligação com os novos tempos foi ampla: em 1890 desenhou seu primeiro cartaz (affiche) para anunciar a abertura do Moulin Rouge. Esse cartaz inundou os muros e paredes de Paris tornando conhecido o nome do artista e dando consistência a essa nova mídia que se alçava à categoria de arte, símbolo tanto do fim de século como de uma nova época.
Seu traço, próximo por vezes da caricatura de jornal (no que era outra vez bem moderno), compunha cenas que se aproximavam da estética da fotografia, mídia nascida com a época. O resultado é essa sensação de instantâneo dada pelo retrato de Monsieur Fourcade. O lado maldito do artista ficava com sua predileção pelas cenas de bordel, provocativas, e pela figura das mulheres da noite, entre elas as artistas de cabaré como Loïe Fuller, do esplêndido guache em exposição, e a exuberante, artista com luvas verdes, aqui também incluída.
Sua poética comportava movimentos antagônicos, indo da suave ironia com que via alguns personagens à beleza leve e plenamente impressionista do retrato de sua mãe, a condessa de Toulouse-Lautrec, vista de perfil num jardim florido. Ela está ali tão sozinha quanto à prostituta no emblemático divã vermelho; mas são duas solidões diferentes, no conteúdo como na forma. Não menos atraente, e surpreendente, é a imagem do cachorro com fita azul, que se diz um esboço mas que, vista com olhos de hoje, seria com tranqüilidade assinada por um artista pós-moderno.
Várias destas obras partem em breve para uma longa viagem ao Japão, de onde retornam apenas no início de 2008. E com exceção de Paul Viaud e do Divã, as demais há tempos não compareciam a esta sala. Mais uma razão para re-visitar, ou ver pela primeira vez, este artista que foi um dos ícones da modernidade nascente.
Henri de Toulouse-Lautrec, A condessa Adèle de Toulouse-Lautrec, 1880 - 1882
Pierre-Auguste Renoir, Menina com as espigas, 1888